Urban Microcosmos

09/03/2018

Por Giovanna Cassavia

A proposta em questão foi apresentada por Giovanna Cassavia e Neva Horvat em conjunto com o Institute of Architecture and Landscape, com orientação dos professores Klaus K. Loenhart, Andreas Boden e Bernhard König, durante o primeiro semestre de 2017 na TU Graz (Graz University of Technology). O trabalho é fruto do programa de intercâmbio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo do Mackenzie.

Em 2016 foi desenvolvido um Master Plan pelos integrantes da faculdade austríaca na cidade de Palmas, Tocantins. O grupo do Institute of Architecture and Landscape realizou pesquisas e análises em campo que deram origem aos questionamentos em torno do chamado UrbanMicrocosmos e outras tipologias produzidas pelos diversos grupos de trabalho. Atualmente, o Masterplan foi vendido à Prefeitura de Palmas e está em fase de busca de investidores. A aplicabilidade do projeto desperta motivação e orgulho em todos os envolvidos, principalmente nos estudantes que enxergam no trabalho a repercussão de seus ideais e empenho.

No presente momento, a humanidade já sofre com as primeiras mostras das mudanças climáticas. É inegável que a velocidade e a intensidade com que ocupamos os espaços habitáveis continua a aumentar de forma imprudente e, ainda assim, não nos atenta ao fato de que 75% da população mundial se localiza em áreas consideradas urbanizadas, e que sua grande maioria se encontra em condições mínimas de vida. A partir destes e de diversos outros indicadores, o projeto em questão procura trazer reflexões sobre o futuro da vida nas cidades e como a condição urbana de Palmas pode responder à tais desafios.


Durante o "avanço" do então conhecido corpo social surge uma demarcação inadequada entre cultura e natureza, tecnologia e ecologia, cidade e meio ambiente. O objetivo aqui colocado é reafirmar o potencial entre a cidade e seus agentes naturais, no qual o ecossistema apresenta-se como relação performática entre o território e suas condições específicas como vegetação, microclima e prática social em Palmas.

A vida nos trópicos é diretamente influenciada pelo clima, dessa forma foi estudada uma experiência arquitetônica alternativa, que trata tal condição latente a partir de temas como termodinâmica, produtividade, comunidade e crescimento. O Urban Microcosmos é a maior tipologia que compõe o precedente Masterplan, contendo em seu programa escritórios, espaços colaborativos de trabalho, ateliers, comércio, restaurantes e também habitações. Os diversos usos foram abordados com foco na promoção de práticas sociais, desenvolvimento o senso comunitário e o intercâmbio de conhecimento. Dessa forma, os espaços públicos tem papel principal na dinâmica do projeto.

Tendo em vista a produção coletiva como tema central do projeto, são encontrados a todo momento espaços compartilhados de trabalho, passeio e vivência que incentivam a interação e a prática de atividades da vida civil. Os "braços" abertos do edifício abraçam a praça central e convidam a comunidade a adentrá-lo. O nível térreo é poroso e garante que as pessoas possam percorrê-lo de diversas formas. Essa permeabilidade dos fluxos se prolonga verticalmente, passando pelos ateliers até os terraços-jardim. O programa de habitação contempla diversas tipologias e é implantado nos dois últimos andares, juntamente com os terraços, para assim incentivar a convivência e a multiplicidade de atividades.

O espaço público é sempre acompanhado da vegetação; esta, além de criar uma atmosfera acolhedora, é base da performance termodinâmica do edifício. A densa área verde nos "canyons" é uma importante ferramenta de projeto, pois se estende por toda a fachada e, por meio da evapotranspiração, esfria e umidifica os espaços internos. Os fechamentos permeáveis nas fachadas providenciam ao mesmo tempo sombra e corrente constante de ar por todo o edifício.

A oportunidade de se explorar uma arquitetura aberta para o contexto físico e social permite uma política de integração. Entretanto, a experiência urbana do Brasil tem respaldo na segregação, no levantamento de muros e no estranhamento do outro. Tanto os laços sociais como o ecossistema são fragilizados e, cada vez mais, a noção humana se perde. Com este projeto procura-se repensar o modo como nós, arquitetos e aspirantes a, temos reproduzido uma ideologia implantada em uma pseudo racionalidade do cotidiano moderno que ainda perdura e molda nosso fazer. É necessário que usemos o meio acadêmico como experimentação e terreno para proposição, caso contrário estaremos acostumados com a mediocridade, olhando o mundo a partir do nosso confortável papel de espectador-reprodutor.


Giovanna Cassavia é graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, com passagem de intercâmbio na Graz University Technology, da Áustria.