Silêncio anterior

25/05/2018

    "Caindo assim a cadeira, sem dúvida cai, mas o tempo de cair é todo o que quisermos, e enquanto olhamos este tombo que nada deterá e que nenhum de nós iria deter, agora já sabido irremediável, podemos torná-lo atrás como o Guadiana, não de medroso, porém de gozoso, que é modo celestial de gozar, também sem outra dúvida merecido." José Saramago.

     O trabalho consistiu em um curta metragem que foi exibido no saguão do edifício da FAU. O vídeo tem a duração de aproximadamente três minutos e foi deixado no saguão durante algumas horas repetidamente, ao mesmo tempo que uma música mais extensa passava paralelamente. Graças a isso, o deslocamento da percepção do vídeo se alterava dependendo das fases da música.

     O primeiro parâmetro exibido foi a ideia de silêncio, que exprime um momento anterior à uma consolidação de qualquer código. Esse silêncio evidencia justamente o tempo de abertura do significado das coisas, entendido no instante em que tudo está sendo formado mas ainda não consolidado, momento específico que tudo está prestes a ser mas ainda não é. O silêncio então, revela o momento anterior da coisa enquanto ser, no qual ela apenas prenuncia algo mas não se consolida em uma única forma. No mesmo passo que se constrói, se destrói; pois cria um campo de possibilidades onde se formam infinitas re-significações a partir da abertura de um modelo instável. O silêncio, nesse caso, atua como um condensador de todas as vozes que lhe são possíveis e cabíveis. Percebe-se, portanto, uma ambigüidade da significação do silêncio e da voz, os quais são representados respectivamente por vazio e preenchimento. Por essa apropriação da ambigüidade consegue-se um recorte de um momento de imprecisão, no qual diluição do sujeito se dá em função de uma unidade, criada a partir da multiplicidade do ser.

     A partir desse momento tratado pensou-se em possibilidades onde o recorte desse modelo pudesse ser exibido e materializado. Os parâmetros elegidos para exibição desse conceito foram, de certa maneira, motivadores ilustrativos e expressivos para a realização das idéias do chamado "momento quase". São eles: precipício, amplitude, prenúncios e potencial. Todos eles foram elaborados no curta para oferecer um segundo momento de abertura, agora para o leitor produzir extensões dos próprios raciocínios estabelecidos inicialmente.   


O trabalho

     A conceituação do trabalho foi feita a partir da dinâmica de discussão da semana de integração da FAU Mackenzie. O conceito de tensão, que foi estabelecido pelo diretório acadêmico da universidade, foi utilizado para a busca dos alunos por modelos de comportamento e de significado da palavra. As reuniões uniram alguns parâmetros de entendimento baseados no destrinchamento do conceito inicial da tensão.

Sobre a Semana de Integração

O evento organizado pela FAU-Mackenzie em parceria com o DAFAM, a II Semana de Integração visa estimular o trabalho coletivo horizontal e multidisciplinar entre os estudantes graduandos de arquitetura, urbanismo e design. Incorporada à grade horária regular, é oferecida aos alunos uma semana de produção intensa embasada por uma temática central cujos grupos interdisciplinares produzem uma síntese, um produto final.

A temática

Somos tensão.
Habitamos a cidade do relógio, nosso tempo é escasso e o trabalho compulsório.
Nos é escasso o recolhimento, a introspecção muitas vezes questão de sobrevivência.
A velocidade da informação nos estaciona, nos tornamos incompatíveis com o foco. A incapacidade de digerir o conhecimento atropelado pelos meios comunicativos, nos transmite uma educação passiva, sem o devido incentivo à reflexão. Mudam os ciclos, as questões e as tarefas.
No horizonte um mundo cada vez mais disperso, esfera que quanto mais se retrata, mais nos escapam os instantes; uma obsessão que ao invés de criar transparência, só redobra essa saturação.
Somos tensão. Uma mudança de olhar, de paradigmas.
A energia que potencializa, inova, nos permite sonhar.
Tempo do ócio, do prazer, da possibilidade de refletir.
Há em nós o protagonismo do agora, agentes tensores.
Há entre nós entusiastas que nos impulsionam à esperança.
O atrito entre potência e angústia.Tensão é ato.
É estado de inquietação.
É potência que movimenta.
É conjuntura do que ameaça romper.
Nós. Agentes tensores.
Ousemos.


Autores

Em ordem alfabética, da esquerda para direita: Alexandre Ceravolo, Felipe Renzo, Gabriela Becker, Laura Rocha, Luana Ferrari, Ludmila Daher, Matheus Coppini, Michael Chen, Rafael Azevedo, Thalita Kovacs, Vinicius Modda. Este grupo é composto por alunos de graduação de arquitetura e urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.