São Paulo: Cidade do Séc XXI

21/02/2018

  "São Paulo: Cidade do Século XXI" foi título do Trabalho Final de Graduação apresentado por Haniel Israel, sob orientação do Prof. Dr. Valter Caldana na monografia e do Prof. Sami Bussab nas atividades de projeto. A banca final foi presidida pelo Prof. Dr. Valter Caldana, com participação da Me. Cecília Pisetta e da Profa. Dra. Roseli D'Elboux em dezembro de 2017 na FAU Mackenzie.

  O título faz abordagens da intersecção entre a rua e a edificação como partes constituintes e elementares do espaço urbano. A partir do problema da fragmentação e da exiguidade dos espaços públicos em São Paulo, constatou-se a falta de unidade e carência de legibilidade à escala do pedestre. Para tanto, aprofunda-se nas particularidades do universo da rua em seus conceitos ao longo dos anos e em diversas cidades: Londres e Paris (Séc. XIX), Boston, Chicago, Los Angeles e Nova York (Séc. XX)

  Em síntese, o trabalho obteve constatações a partir das particularidades em mais de vinte estudos de casos realizados in-loco, com vistas a obter respostas para rua e cidade desejáveis do século XXI, a partir do desenho das edificações e das questões sociais contemporâneas emergentes. A Rua Marquês de Itu em toda sua extensão, no centro da capital paulista, foi objeto de aplicação da pesquisa que prosseguiu paralelamente às atividades de projeto. Este último teve como produto três edificações multifuncionais projetadas em quadras diferentes a partir de terrenos subutilizados.

  QUANDO A RUA VIRA CIDADE 

  Ao falar em cidade, muitas imagens são possíveis de ser concebidas pela mente humana: uma visão aérea do espaço urbano, estruturas complexas e caóticas, ou quem sabe até modelos futurísticos, os quais são elementos que são remetem à ideia do grande. Ou possivelmente tem-se a alternativa de algo mais reduzido como um lugar em específico, uma edificação, uma praça, uma rua de bairro.

  As cidades são o maior artefato já produzido pela humanidade, sendo objetos de desafios, oportunidades e sonhos. Da antiga vila colonial à atual metrópole, São Paulo experimentou várias cidades em um considerável curto período de tempo, revelando nas camadas produzidas pela história, um feixe de ideias para reajustes com a situação atual. O modelo da cidade tradicional tem sido resgatado nos debates acadêmicos por conter uma relevância nas abordagens sobre a retomada dos espaços públicos e sobre os desafios de tornar as cidades mais humanas.

  Frente as dificuldades de se encontrar espaços vazios em regiões com desenvolvimento consolidado como, de certo modo, já usufrui a área central, torna-se necessário pensar soluções a partir de espaços existentes e/ou subutilizados para uma nova realidade. Ampliar a oferta de espaços públicos através das arquiteturas efetivas é oferecer novas possibilidades de uma organização comprometida com o desenho urbano e esse, por sua vez, pautado nas gentilizas urbanas.

  O desenho urbano que valora o suburbano e as grandes distâncias, tido como preconizador do automóvel, torna-se obsoleto no que tange a humanização das cidades. Aliás, o termo "humanização das cidades" é algo que pode custar caro aos arquitetos e urbanistas: se a cidade é um artefato humano seria redundante humanizar aquilo que já é humano.

  O espaço público é fundamental na compreensão do desenho urbano de uma cidade no tocante ao protagonismo da experiência cidadã. Consistem basicamente no palco das trocas e interações sociais e convergem movimentos de manifestações políticas, ressaltando o exercício da alteridade e da diversidade: o espaço público é para observar e ser visto (CALLIARI, 2016, p. 46). A convivência com demais indivíduos não é só uma questão de percepção como também é uma questão de segurança e isso é a força motriz que faz com o que o homem atue em grupos sociais (2016, p. 47).

  Na contemporaneidade, os espaços públicos tornaram-se exíguos e quando existem são mal planejados e administrados. Há uma modificação das configurações urbanas que fundamentaram a existência de suas hierarquias e que afrontam a qualidade desses espaços nas metrópoles como a multiplicação das centralidades e perda do papel simbólico do centro tradicional, interferências do privado sobre o público e predominância do não-lugar sobre o lugar.

  Esse subtítulo é uma clara apropriação do clássico "Quando a Rua Vira Casa", para buscar entender politicamente o modelo de cidade para o século XXI que se deseja construir. Pode-se dizer de passagem que a rua vira cidade, quando ela expressa a identidade urbana através dos seus aspectos qualificadores: pessoas, atividades, passagens, permanências, estética, isto é, onde a multiplicidade do fluxo constante produz o ritmo, no qual os papeis sociais acontecem e mesclam entre si.

  A qualidade da rua como espaço público está na sua capacidade de atender as demandas da experiência humana no que tange a urbanidade, proporcionando o estar, as trocas e a interatividade. O significado da rua abrange tanto as fachadas quanto o interstício conformado entre elas e, sendo um espaço da totalidade da própria sociedade que lhe afere vida, é passível de alterações. O termo espaço é uma abstração, mas o lugar é o espaço vivido, é onde estão impressas as experiências humanas. Portanto, são as vivências que produzem sentido nas ruas, tornando-a habitáveis. É ainda o palco da vida: lugar para expressar os papéis sociais do indivíduo perante as mais variadas plateias na vida pública.

  A legibilidade é necessária para propiciar um sistema de orientação claro, legível. Trata-se da qualidade visual, isto é, da facilidade que a mente humana organiza os símbolos para poder decifrá-los e orientar-se no espaço urbano. É imprescindível a identificação e a estruturação do ambiente para a locomoção e essas estão sujeitas às percepções visuais de cor, forma, movimento e luz. (LYNCH, p. 3). Um ambiente legível oferece segurança emocional, estabelecendo uma relação estável entre o indivíduo e o mundo externo.

  Diversidade também é um instrumento preconizador para desenvolver ruas de múltiplos significados e de boa qualidade urbana. Os sentidos humanos são aguçados pelos sons, cores, aromas e sabores proporcionados pelo cotidiano da urbe, pelo ambiente da alteridade, cujas experiências promovem vínculos de urbanidade para formação da identidade individual ou coletiva. Movimentos contra o funcionalismo e os padrões impostos pela modernidade defendiam cidades que provocassem os estímulos ou situações como a Internacional Situacionista em Paris. Em Nova York, a crítica de Jane Jacobs ao antagonismo dos administradores públicos e seus ideais obsoletos, ainda enraigados nos preceitos modernistas, enfatiza a importância das unidades de vizinhança em conjunto com a viscosidade de atividades nas calçadas e a diversidade de usos.


  A dimensão humana como recurso do planejamento urbano e do desenho nos espaços públicos foi negligenciada para valorar as largas pistas de rodagem e as grandes edificações, estruturas desproporcionais à sua escala. Tem-se aumentado o interesse das políticas públicas nas melhorias de desenho, na tentativa de contornar os problemas do espaço urbano que se acumularam nos últimos anos para readequação dos ambientes à escala do pedestre. Implementação de mobiliários, alargamento de calçadas, melhorias de aspectos visuais e estéticos, fruição, uso da fachada ativa, são alguns dos mecanismos utilizados para tornar as ruas mais sedutoras, caminháveis, confortáveis e aprazíveis.

  A rua vira cidade quando ela cumpre mais do que seu papel passagem e de ligação se torna um espaço público capaz de oferecer suporte às atividades que nela ocorrem. As ruas e outras formas urbanas de espaços públicos definem o caráter de uma cidade e trabalham direta ou indiretamente para formação da imagem urbana: é um reflexo da sociedade. Como apresentado nesse capítulo, as cidades que obtiveram um desenvolvimento urbano bem-sucedido ao longo da história, foram aquelas que priorizaram a organização dos espaços públicos em conjunto com a conectividade das ruas.

  A cidade é complexa em suas formas e em seus processos socioeconômicos, ora interrompidos, ora constituídos juntos às reminiscências que se consolidaram no tecido ao longo do tempo. O espaço público das cidades diante dos efeitos da urbanização espraiada e das consequentes fragmentações do território durante o século XX, foi diluído em detrimento da transformação da cidade como objeto ou máquina de produzir lucros, enaltecendo os espaços privados. Nesse sentido, a rua passou a ser reduzida em seus significados, assumindo apenas seu papel funcional de tráfego de veículos.

  Em São Paulo e na maior parte das cidades brasileiras, pouco se tem reconhecido a luta árdua por parte dos arquitetos, urbanistas e outros agentes preocupados com o desenvolvimento humano nos espaços urbanos. Frente uma sociedade que vê o espaço público como uma parte residual, algo que não gera lucros ou que causa desinteresse simplesmente porque pertence ao público e não totalmente ao seu domínio particular, torna-se cada vez mais difícil disseminar soluções que vislumbrem um espaço íntegro, vivo e eficaz.

  A cidade é um estado de espírito e, mesmo que a mecanização advinda da modernidade roube os aspectos humanos da cidade como lugar, sempre haverá resistências, ainda que de forma tímida ou em pontos isolados do território.

  Os estudos de caso de ruas em São Paulo talvez seja a parte que mais expressa envolvimento com o tema de pesquisa e com o método proposto. Ao visitar as ruas a experiência se tornou algo a mais do que coletar dados em campo. Foi possível notar que, mesmo sendo uma cidade que tem uma visão generalizada do tipo "selva de pedra sem vida", ainda se tem esperança de retomar a qualidade humana de uma cidade que cresceu vertiginosamente em descompasso com uma boa arquitetura do edifício e da cidade.



BIBLIOGRAFIA

AUGÉ, Marc. Não Lugares: Introdução a uma antropologia da supermodernidade. 9. ed. Campinas: Papirus, 2012. 110 p. Tradução de: Maria Lucia Pereira.

CALLIARI, Mauro. Espaço Público e Urbanidade em São Paulo. São Paulo: Bei Comunicação, 2016.

CASTELLS, Manuel; BORGES, Maria Luiza X. de A. A galáxia da internet: reflexões sobre a internet: os negócios e a sociedade. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2003.

GEHL, Jan. La humanización del spacio urbano: la vida social entre los edificios. Barcelona: Reverté, 2009. 215 p. Estudios universitarios de arquitectura, 9 v.

KOOLHAAS, Rem. Grandeza, ou o problema do grande. In: __________. Rem Koolhaas: três textos sobre a cidade. Barcelona: G. Gili, 2010. p. 13 - 28.

QUANDO a rua vira casa: a apropriação de espaços de uso coletivo em um centro de bairro. 3. ed. São Paulo: Projeto Editores Associados, 1985.

TUAN, Yi-fu; OLIVEIRA, Lívia de. Topofilia e meio ambiente. In: _________. Topofilia: um estudo da percepção, atitudes e valores do meio ambiente. São Paulo: DIFEL, 1980. p. 106 - 128.



Sobre o autor

Haniel Israel é arquiteto e urbanista formado pela FAU Mackenzie com o título "São Paulo: Cidade do Século XXI" (2017). Participa como pesquisador do LPP - Laboratório de Projetos e Políticas Públicas, atuando com temas da linha de urbanismo. Durante a graduação foi monitor de eventos organizados pelo DAFAM - Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie, tais como a SVM 2014 e as viagens culturais de Salvador (2015), Minas Gerais - Estrada Real e Rota dos Diamantes (2016), Buenos Aires e Montevideu (2017).