Rua 24 de Maio: Recepção e percepção no SESC de SP

01/03/2018

Por Alexandre Abrahão 

No centro da cidade de São Paulo constam algumas problemáticas próprias da análise e do pensamento de arquitetos e urbanistas. Elas se manifestam na medida em que se atualizam as forças de ação do campo, constantemente propensas a mudanças significativas. Isso ocorre principalmente quando se realçam ou alteram intensamente as lógicas próprias ao local, seja por efeito de impulsão ou repulsão. Por isso, primeiramente é necessário estabelecer alguns significados históricos do comportamento do centro e da cidade referentes às principais problemáticas iniciais que são enfrentadas quando se trata de um objeto arquitetônico inserido num território que já se encontra, de certa maneira, regrado e estabelecido.

Os aspectos gerais de uma localidade central são encontrados nos tópicos referentes à diversidade, mixofobia¹ e aos problemas psicológicos do confronto contínuo com a alteridade. Além disso, a efemeridade, transitoriedade e fluxo que caracterizam um espaço itinerante, produzem uma objetividade no comportamento e, por consequência, uma aridez de relações entre os indivíduos. De certo modo, a estruturação histórica que estabelece a dicotomia centro-periferia realça e reproduz ainda a impessoalidade nas concepções e aspirações da localidade. A lógica econômica preponderante também pressupõe ao local uma avaliação acima de tudo tendenciosa e comercial, também causada por preocupações advindas de outros campos da política.

"A base psicológica do tipo metropolitano de individualidade consiste na intensificação dos estímulos nervosos, que resultam da alteração brusca e ininterrupta entre estímulos exteriores e interiores. O homem é uma criatura que procede a diferenciações. Sua mente é estimulada pela diferença entre a impressão de um dado momento e a que a procedeu. Impressões duradouras, impressões que diferem apenas ligeiramente uma da outra, impressões que assumem um curso regular e habitual e exibem contrastes regulares e habituais - todas essas formas de impressão gastam, por assim dizer, menos consciência do que a rápida convergência de imagens em mudança, a descontinuidade aguda contida na apreensão com uma única vista de olhos e o inesperado de impressões súbitas." ²

"A primeira fase das formações sociais encontradas nas estruturas sociais históricas bem como contemporâneas é o seguinte: um círculo relativamente pequeno firmemente fechado contra círculos vizinhos, estranhos ou sob qualquer ou sob qualquer forma antagônicas. Entretanto, esse círculo é cerradamente coerente e só permite a seus indivíduos um campo estreito para o desenvolvimento de qualidades próprias e movimentos livres, responsáveis. Grupos políticos e de parentesco, associações partidárias e religiosas começam dessa forma. A auto preservação de associações muito jovens requer o estabelecimento de limites estritos e uma unidade centrípeta. Portanto, não podem permitir a liberdade individual e desenvolvimento interior e exterior próprios." ³

Objeto Suporte

O suporte nesse sentido se manifesta como um catalisador, um mecanismo que recebe e intensifica tanto as qualidades já existentes, como também os problemas sociais. O produto desse processo prevê possibilidades de auto-enfrentamento à sociedade, geradas pelo rompimento com a ordem e com os mecanismos internos de reprodução dela. Não se imagina que os agentes da própria ordem se manifestariam como produtores dessa razão. Mesmo assim, o edifício suporte estabelece uma condição de liberdade ao sujeito público e o encaminha para uma atuação em novos campos imprevisíveis, contidos no movimento natural da sociedade.

Espaço secundário

O interesse central aqui é perceber as propriedades dessa arquitetura catalisadora, a qual é materializada e produzida, sob alguns aspectos, menos em si mesma do que em função de sua exterioridade. Pode-se verificar tal análise no SESC 24 de Maio,que expressa um duplo sentido da figura-fundo. O primeiro é visual, estabelecendo uma conexão forte entre interior e exterior do edifício com o entorno imediato. Essa conexão tem a função principal de reconhecimento do exterior no interior e a intersecção entre espaço interno e externo, onde a incorporação induz o próprio usuário a se reconhecer perante a cidade que aparece constantemente no percurso. O segundo sentido, agora sob um olhar cartográfico semelhante a um mapa Nolli, aborda a relação espacial entre os sujeitos e a cidade construída, se revelando em expressões de sentido também sociais.

O projeto do SESC 24 de Maio propõe uma relação intensa com a localidade central. De certo modo, verificando o edifício com essa causalidade, admite-se o SESC como figura-fundo no sentido do uso, expressando a antítese de uma lógica da propriedade privada. O fundo, nesse caso, seria responsável pela oferta de espaço acessível (público) dentro de uma verticalização central hegemônica consequente da lógica liberal do mercado. As figuras, de modo contrário, se mostram no âmbito da construção privada direcionada aos interesses individuais. Assim, o edifício na rua 24 de Maio se encontra abastecendo o público com um espaço mais aproximado dos efeitos próprios de público, ao mesmo tempo em que configura, pela sobreposição de patamares diversos, uma verticalidade próxima das demais do entorno. Com isso, acaba propiciando também a conduta de seu oposto complementar: um espaço socialmente horizontal. A decorrência dos encontros entre sentidos afirma a "figura" na totalidade formal e visual entre o fundo e o sujeito.

As características particulares de ambas as formas de pensar evidenciam as contradições entre espaço público e privado no centro de São Paulo. Essa dualidade aparece a fim de questionar a polaridade entre espaços estruturados psicologicamente diferentes. No primeiro caso, no qual a figura se estabelece enquanto objeto e o fundo a realiza no fenômeno de objeto no mundo,tem por consequência o encontro do próprio indivíduo estabelecido nele. No segundo caso, a figura se estabelece enquanto objeto do centro pré-estabelecido, fechado e inacessível. O fundo se dá no uso permeável do edifício verticalizado em 15 andares de acesso ao espaço, gerando a aproximação com a liberdade, o respiro e a continuidade da esfera pública. Adquire-se, assim, um fundo para um espaço com objetos impermeáveis, que reflete o exercício do modo de operar público e, dessa forma, a verificação bruta dessa polarização.Por fim, evocam-se novamente as discussões sobre limites e princípios de atuação em cada estrutura, pública ou privada, e sua relação com a cidade real.

Individualismo e Reprodução

O edifício propõe o movimento contrário ao esvaziamento da esfera pública dentro de uma cidade marcada pela hipervalorização da individualização do espaço. No edifício do SESC os espaços integram, virtualizam o exterior no interior, deixa-se ver a cidade. A própria percepção visual do exterior coincide com o uso social a ele devido.

"Essa atitude, quando expressa em termos da oposição entre privado/natureza e o público/cultura, significava que as relações entre os dois domínios eram mais uma questão de controle e de equilíbrio do que uma questão de absoluta hostilidade. O domínio privado deveria pôr a prova o público para verificar até onde os códigos de expressão, arbitrários e convencionais, poderiam controlar o senso da realidade de uma pessoa; além desses limites, havia sua vida, uma maneira de se exprimir e um conjunto de direitos que convenção alguma poderia anular por sanção. Mas o domínio público era igualmente um corretivo para o domínio privado: o homem natural era um animal; o público, portanto, corrigia uma deficiência da natureza, que somente uma vida conduzida segundo os códigos do amor familiar poderia produzir: essa deficiência era a incivilidade. Se o vício da cultura era a injustiça, o vício da natureza era a rudeza." 4

Figura fundo - Perda da dualidade

Não vemos as partes isoladas de um edifício, vemos o todo. O significado do todo, como na teoria geral da Gestalt infere diretamente na percepção dos objetos individualmente. As forças externas de organização da forma seguem as leis mais próprias do campo psicológico, unidade, segregação etc. O reconhecimento do edifício, dentro desse sistema de interpretação, é readquirido constantemente pelo sujeito. Da mesma forma como centro da cidade não é só feito de liberdade, nem tampouco fechado e desprovido dela, o edifício consagra uma interpretação segundo as leis da somatória e não mais da exclusão entre o público e o privado. Considerando os normas psicológicas que definem da impossibilidade da independência entre as coisas no mundo, o edifício também se configura internamente dentro de uma reação constantemente inferida pelo exterior.

O vazio ambivalente: vida pública esvaziada e vida a se preencher

"No teatro, há uma correlação entre a crença da persona do ator e a crença em convenções. A peça, a representação e o desempenho exigem crença nas convenções para serem expressivos. A própria convenção é o mais expressivo instrumento da vida pública. Mas, numa época na qual as relações intimas determinaram Áquila que será crível, convenções, artifícios e regras surgem apenas para impedir que uma pessoa se revele a outra; são obstáculos a expressão intima. À medida que que o desequilíbrio entre a vida pública e a vida intima foi aumentando, as pessoas tornaram-se menos expressivas." 

Em resposta à critica social de Sennet sobre o esvaziamento e individualidade, percebe-se outra dimensão do conceito de vazio referente ao edifício suporte. O objeto em questão permite um vazio para novas aparições e invenções de mecanismos de sociabilidade. O vazio aspira, nesse sentido, à produção da diferença e da reconciliação do sujeito com a expressão, ação e produção de si mesmo na condição de alteridade. Ele tem nesse espaço as tensões e responsabilidades próprias à sua própria revolução. Desse modo, percebe-se que entre os elementos que envolvem a matéria física e espacial, que dão suficiente abertura para esse tipo de liberdade, a constatação do papel da arquitetura parece então indispensável.

Possíveis conquistas

Há algo no desenho e no significado das escolhas arquitetônicas que enfatizam uma participação pública. A construção de um espaço democrático é uma conquista advinda de um manejo muito próprio das condições espaciais de acessibilidade, fluidez, porosidade e possibilidade de uma sinergia de culturas em um campo de concórdia. Dentro desse raciocínio, as escolhas arquitetônicas próprias a um SESC se fazem valer de maneira a tangenciar esses assuntos e realçar o comportamento do sujeito, mesmo no momento atual de escassez e insegurança. Talvez dessa maneira, por meio do olhar aproximado das estruturas que determinam a política e o comportamento do indivíduo, se possa entender melhor as conquistas circunstanciais do momento da cidade, a fim de impulsioná-las e engrandecê-las no futuro.

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¹ BAUMAN, Z. Amor Líquido: sobre a fragilidade de laços humanos. 1.ed. Zahar, 2004.
² SIMMEL, G. 1987. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, G. (org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro: Guanabara
³ SENNETT, Richard. The fall of public man Cambridge: Cambridge University Press, 1974;
4 Disponível em : <https://fauufpa.org/2013/01/19/gestalt-do-objeto-por-joao-gomes-filho/>. Acesso em 20/02/2018 

Alexandre Abrahão é estudante de graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie. Também é co-fundador do Portal Viès Arquitetônico