Projeto de revitalização do Largo do Arouche:  uma acupuntura da gentrificação

09/05/2018

por Jaime Solares

     No dia 3 de dezembro de 2017, ocorreu o lançamento do manifesto da FPDAR* (Frente de Proteção da Diversidade e pela Reforma do Arouche). Através de oficinas, discursos, música, serviços comunitários, bandeiras e corpos, a frente pretendeu dar visibilidade a uma questão ainda pouco conhecida do paulistano: em setembro do ano passado o ex prefeito de São Paulo João Dória Júnior anunciou publicamente que irá levar adiante o que se denominou então de "Boulevard Francês", projeto do escritório franco-brasileiro Triptyque com consultoria da IVM e Readymake, e apoio do Consulado Francês.

     O projeto não é pouco conhecido por mero acaso. Prevendo começar as obras já em junho deste ano, a prefeitura sinaliza estar totalmente alinhada com o ritmo acelerado de gentrificação que vem sendo levada a cabo por forças econômicas privatistas no Centro de São Paulo. Movimentos como o Viva Centro e o Parque Minhocão simbolizam o rosto mais público desse processo, e mesmo alinhados com um princípio de retorno ao centro defendido por muitos arquitetos, urbanistas e parte da população, o fazem com claros interesses privados que excluem a população mais vulnerável que vive na região.

     A essa qualidade de ação damos o nome de higienismo, pois através de um concerto de forças estatais e privadas, uma elite econômica reorganiza o espaço urbano segundo seus interesses rentistas, espoliando a população existente do urbanismo que ali se instala. Através dessa "limpeza" urbana, essa elite consegue capinar um terreno agora livre para sua sanha imobiliária. Esse movimento vem sempre acompanhado de outro, quer seja, da gentrificação daquele território. Ou seja, a vinda de pessoas e atividades de alto padrão, voltadas a atrair uma população de maior renda, expulsando a que ali vivia.

     É importante lembrar que a frente não é contra as melhorias do Largo, muito pelo contrário. Na verdade queremos ainda mais melhorias do que aquelas contempladas no projeto da Petit Paris. Desejamos um projeto maior não apenas em termos de território, mas especialmente em termos de participação popular. Centenas de moradores, frequentadores e trabalhadores do largo terão seu espaço público modificado de chofre já este semestre, segundo nos informam os autores do projeto.

     O processo de gentrificação não é ruim porque gente rica vem morar em regiões tradicionalmente menos valorizadas, mas sim porque o processo se dá de forma autoritária e sem nenhuma preocupação real com as pessoas que ali se identificam. Nesse sentido não deixa de ser irônica a referência do projeto com Paris, cidade-modelo de um urbanismo a golpes de machado. Haussman, diretor de urbanismo de Napoleão III, transformou seu desenho em cidade, à revelia da opinião dos cidadãos franceses e impôs um traçado reconhecido por seu autoritarismo e total descolamento com a escala do dia a dia, e do que ali antes existia.

     Partindo da compreensão, largamente aceita pelas disciplinas que discutem o espaço - arquitetura, geografia, sociologia urbana, etc. - de que o espaço não é neutro, é fundamental compreender quais foram as conformações materiais e sociais que deram ao Largo o caráter agregador e o fizeram local de encontro da população LGBTI+*. E mais ainda: quais qualidades e de que forma o tempo vingou naquele espaço para que fosse notória sua centralidade a nível regional, nacional e internacional (não é raro ver passearem por ali imigrantes que precisaram sair de seus países para exercer sua sexualidade) para essa população.

     O entendimento dessas especificidades deve vir sempre acompanhado da vontade de preservação de um todo maior do que as contingências imediatas daquele território. Ora, é claro que melhorar a arborização, a iluminação ou trocar os bancos não significa, de imediato, a gentrificação e degradação do Largo. Mas quando passa a existir um projeto que contempla basicamente a parte mais nobre daquele espaço e se desenvolve sem nenhum diálogo com as pessoas de lá, o que vemos é um desejo sim de gentrificação.

     E não sejamos inocentes. O rápido número de novos empreendimentos na região e entorno - notadamente próximos do Minhocão - não é mero acaso, ou parte de uma distribuição equânime dos investimentos do setor imobiliário. Ao nos lembrarmos que o capital é medroso, é fácil relacionarmos os movimentos do mercado imobiliário em direção ao centro e uma "revitalização" de pontos-chave da região. Em tempo, o termo revitalização foi usado entre aspas pois carrega já o sentido pejorativo de que naquela região o que há não é vida. Ora, prostitutas, pessoas em situação de rua e usuários de droga merecem menos de nossa empatia de humanidade? Ali há sim vida - e muita. Negar a condição de seres viventes a essas pessoas é aprofundar ainda mais a falésia que separa os ricos dos pobres, situação que transforma as cidades brasileiras em verdadeiros campos de batalha.

     E reitero aqui a chamada republicana que a frente faz. Pois o que desejamos é, no fundo, o convívio e o respeito entre todas e todos os cidadãos que encontram no largo um local de afetividade, trabalho ou mesmo sobrevivência. Além de procurarmos construir um projeto democrático, participativo e holístico para o largo, também nos preocupamos com sua preservação material e imaterial como centralidade afetiva. É nosso maior desejo ver crianças brincando no parque aos sábados, ver idosos passeando pelas lindas estátuas que margeiam o largo sem medo de serem furtados, ver jovens LGBTI+ se conhecendo e reconhecendo em um espaço público que permite o encontro.

     Nesse sentido é no mínimo inoportuno como o projeto do Triptyque imagina a ocupação do Arouche. Em todas suas imagens de divulgação o que vemos são pessoas brancas, bem vestidas, tomando seus cafés e andando de bicicleta. Em um Brasil que ainda se ilude enquanto democracia racial, fica clara a intenção apontada: que o largo seja a nova casa de uma classe média. Onde, nas lindas imagens projetadas, entra o corpo negro e periférico?

     E lembro aqui os rolezinhos que ocorreram em 2013. Exemplo maior da vontade dos excluídos de acessarem o mercado e o consumo, mas também aqueles espaços que até então o olhavam com cara feia. Pois é claro que qualquer pessoa pode entrar nos shoppings, mas realmente são todos que entram? Há uma série de dispositivos de coerção e exclusão que impedem que os shoppings sejam frequentados por uma população periférica, então não venha me dizer que o Petit Paris não vai afetar a autoimagem e o referencial que o largo tem na população que vem de muito longe apenas para encontrar um lugar onde não é execrado.

     Em um Brasil de crises, não há espaço para a inocência ou a boa vontade que sublima os conflitos de nossa sociedade hipócrita. Não é um mero acaso que o nosso seja o país que mais mata população LGBTI+, em especial população trans, do mundo. Pois o que desejamos, de maneira mais profunda, do fundo do peito, é que o diálogo ordene nossa sociabilidade. Mas quando o Estado aponta diariamente uma arma para as partes mais vulneráveis, esperar a paz é esperar a morte. Nós queremos a vida! Escolhemos a vida! Por isso queremos proteger e melhorar esse que é nosso espaço de resistência, mas também de amor. O Largo do Arouche é de quem ali vive, trabalha e frequenta. Não de quem a gere de maneira populista, oportunista, classista e autoritária.


*LGBTI - é a sigla utilizada pela REPEP/USP para se referir às Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexo. O "mais" simboliza todas aquelas orientações sexuais, identidades e expressões de gênero que não foram incluídos na sigla original, procurando assim abarcar a multiplicidades de exercícios da sexualidade que existem.

*FPDAR - a Frente de Proteção da Diversidade e pela Reforma do Arouche foi uma frente que surgiu com o intuito de se criar um grupo democrático, plural e interdisciplinar para a reformulação do projeto de intervenção colocado pela prefeitura, agora de um modo participativo e includente.


Jaime Solares Carmona é arquiteto e urbanista, mestrando da FAU USP sob o tema "Espaço e Gênero". Participa da Frente pela Proteção e Reforma do Largo do Arouche desde 2017, é pesquisador voluntário na REPEP+USP, e escreve sobre arquitetura em seu site Ensaios Críticos.