Precisamos falar sobre Alphaville

27/03/2018

por Estúdio MINA

     Este trabalho teve duração de um ano, foi desenvolvido pelo Estúdio MINA, dentro da disciplina de Estúdio Vertical da Escola da Cidade e também foi o Trabalho de Conclusão de Curso da aluna Camila Moraes. O trabalho foi exibido na 11 ª Bienal de Arquitetura de São Paulo, na categoria Utilidade Pública.

     Precisamos falar sobre Alphaville foi um recorte escolhido para exemplificar a máxima de um fenômeno que acontece principalmente em São Paulo, mas também está presente em todo o Brasil; a vida em condomínio. Nos concentramos no empreendimento pioneiro que deu origem ao modelo brasileiro de condomínio fechado, o Alphaville Barueri, visando explicitar por meio de análises as consequências do modelo de habitar derivado dessa escolha de vida.  O trabalho contribui como fornecedor de argumentos e materiais estruturados enquanto ferramenta capaz de fomentar uma comunicação entre a academia, o mercado da construção civil e a sociedade, e, para tanto, há um esforço para que a abordagem do assunto seja didática, direta e de fácil acesso.

     A pesquisa propõe uma reflexão direta e abrangente sobre as relações sócio-espaciais presentes no primeiro bairro planejado composto por condomínios murados, horizontais, de lotes unifamiliares construído no Brasil. O grupo se propõe a fazer esse estudo através de levantamentos cartográficos da região, análises físicas e quantitativas, pesquisas online e uma série de entrevistas com moradores, ex-moradores, trabalhadores, professores, urbanistas e com o atual presidente da empresa Alphaville.

     A compilação de toda a pesquisa resultou em uma publicação e também na criação de uma plataforma digital. A intenção desse site é ser o mais didático possível, conversar com as pessoas de modo a apresentar a questão de diversas maneira, problematizá-la e, assim, instigar o leitor a estabelecer suas próprias conclusões sobre o assunto.

     Ao longo do trabalho são apresentadas análises do bairro Alphaville, na grande São Paulo, a partir de mapas e diagramas autorais, que elencam e elaboram imagens através dos elementos que compõem o território. Além disso, também serão apresentadas o que chamamos de imagens de alto impacto produzidas a partir da leitura das informações analíticas na intenção de ativar reflexões imaginativas. Todos os dados apresentados e elaborados em imagem foram exibidos da maneira mais didática possível que se encontrou para fazê- lo, para que assim o diálogo fosse tangível a todos.

     O mapa acima apresentado foi produzido pelo grupo a partir de imagens aéreas do bairro e mostra de maneira mais clara as divisões da gleba muradas e as demais partes que o compõe. Ao longo da publicação, esse mapa é apresentado de forma que as partes destacam-se de acordo com o seu surgimento: começando com a área industrial e o primeiro condomínio residencial fechado, até sua atual conformação com áreas comerciais, empresariais, escola, universidades etc. Em outros momentos o mapa é utilizado para mostrar outras camadas que caracterizam o local, como a área vegetativa, o rio que divide o bairro do resto da cidade, o linhão de energia, as ruas abertas e fechadas, entre outros.

     Pesquisas recentes sobre o bairro de Alphaville apontam que há por volta de 80 mil habitantes residentes do bairro e uma média de 150 mil pessoas em condição de população flutuante, chegando a uma circulação total de cerca de 200 mil pessoas por dia. Tendo em vista esta grande disparidade, buscou-se conhecer melhor o perfil das pessoas que frequentam o bairro. O perfil do habitante residente de Alphaville foi traçado a partir de uma pesquisa por questionário online respondida por 356 pessoas, já o perfil desta população flutuante foi estudo a partir de 50 entrevistas realizadas in loco. Algumas destas entrevistas foram destacadas e produzidos mapas nollis que demonstram onde os entrevistados têm acesso ao bairro, criando uma base para inúmeras comparações e análises.

     Desde o início do projeto foi uma preocupação escutar todos os envolvidos no debate: mercado da construção civil, academia, moradores etc. Dessa maneira, realizou-se também entrevistas com funcionários da empresa Alphaville.

     Este trabalho não se pretende como solucionador de nenhuma das questões que envolvem Alphaville, mas sim sistematiza a sua reflexão inicial: por que Alphaville deu e dá tão certo se sabemos ser um modelo indesejável? Mas, é só a academia que o julga indesejável? Não podemos, contudo, desconsiderar a realidade do estado de violência existente no Brasil. As narrativas do crime (Caldeira, Tereza) realmente existem, mas são alimentadas pelos altos índices de criminalidade e reaproveitadas pela mídia para instaurar um estado de alerta na população, o que acaba se refletindo espacialmente nos enclausuramentos da vida urbana.

     Alphaville foi criado pela iniciativa privada e, por mais que seus fundadores tenham apostado no mercado e feito um bom empreendimento em termos financeiros, ao mesmo tempo, há de se considerar que a construção de Alphaville se aproveitou da oportunidade de lidar com um problema de segurança pública que o estado ainda não foi capaz de solucionar. Mesmo que avaliemos que grandes glebas muradas ou gradeadas interfiram em muito nas fruições e relações urbanas, é possível entender porque algumas pessoas sentem a necessidade de se proteger atrás de dispositivos de segurança. No Brasil, estas medidas parecem inescapáveis: ou você escolhe viver circunscrito ao muro da própria casa, ou aceita viver um pouco mais longe do centro urbano com um muro que engloba mais casas ou edifícios, em um condomínio. Contudo, o que se alerta é que tal relação excludente só intensifica a bola de neve do crime.

     Este trabalho e as questões que ele levanta, portanto, não se esgotam. O que se encadeou aqui foi uma sucessão progressiva de percepções, e a ideia final é que a discussão se perpetue ainda futuramente. Muito do que foi apontado ao longo dessa pesquisa pode desdobrar-se em muitas outras longas re exões. No entanto, agora, passada uma longa dedicação em entender as lógicas que regem o território do primeiro Alphaville, já é mais possível lançar-se para o assunto "alphaville" de diversas maneiras de forma mais embasada. É uma esperança do grupo que o trabalho ajude trabalhos futuros a se concretizarem, que o debate continua e que profissionais possam entender cada vez mais como fazer uma costura sensível quando chegar o dia em que Alphaville se amarrará totalmente à São Paulo.

vvvvvAlém da publicação, o outro principal produto deste trabalho foi o site <sobrealphaville.wixsite.com/precisamosfalar>. Ele foi elaborado de maneira a ser o mais didático possível e atingir todos os públicos, arquitetos e não arquitetos, que queiram se informar mais sobre o assunto. Além de todo o material produzido pela equipe, nele foram anexadas referências externas e trabalhos já consolidados sobre o tema. Sendo o estímulo ao debate um dos objetivos do trabalho, criou-se uma sessão na página destinada a um fórum de discussão.


O Estúdio Mina é um grupo de mulheres formado na Escola da Cidade e que trabalha no desenvolvimento de trabalhos em diversos campos da arquitetura. Para o execução deste trabalho, a equipe era formada por Camila Moraes, Inaê Negrão, Beatriz Dias, Stella Bloise, Camille Zuckmeyer, Beatriz Sallowicz e Marina Schiesari.