"Ocupar para discutir". Evento discute papel da universidade no planejamento do espaço urbano

23/10/2017

autor: André França

"Se morar é um direito, ocupar é um dever". A partir da fala da professora da FAU-Mackenzie, Lizete Rubano, iniciou-se a mesa de discussão sobre o papel da academia frente ao espaço urbano. O evento, organizado pelo portal Viès Arquitetônico, colocou em pauta as diversas faces de ocupação do espaço público. Compondo a mesa, Abílio Guerra, professor da FAU Mackenzie e diretor do portal Vitruvius; Luiza Naomi, professora da Faculdade Belas Artes; e Fábio Valentim, professor da Escola da Cidade, e sócio do escritório UNA.

A discussão teve início com apresentação de Luiza Naomi, com estudos de alunos com sua orientação acerca do conflito habitacional no centro da cidade de São Paulo. No estudo, o impressionante número de que em 2010 constavam 290 mil imóveis não habitados nesta região, e total de 130 mil famílias sem local para moradia na mesma área. Desta análise, seguiu-se debate sobre a rotina e organização das ocupações de imóveis abandonados na cidade, além das ocupações das escolas estaduais pelos alunos em 2016, contra a proposta de fechamento e transferência de unidades. À época, a manifestação provocou o arquivamento do projeto oficial do governo para rediscussão.

Fábio Valentim questionou a obrigatoriedade de que os estudos em ambiente acadêmico cheguem a um resultado, ignorando o diálogo com os diversos entes envolvidos em cada processo. "Projetos chegam como coelho da cartola, como se não importasse história, cultura e o que a população realmente quer".

Abílio Guerra trouxe diversas passagens e vivências sobre a consolidação de projetos, como a do pichador que entrevistou e que lhe apresentou outra interpretação da cidade: "E ele me disse que [...] os verdadeiros pichadores da cidade são os arquitetos, com seus prédios horrendos, junto à publicidade e aos direitos econômicos, tirando o direito à vista. Vocês nos tiram o direito à paisagem".


Apropriação e participação popular

Durante a discussão, ficou o debate sobre o quanto os profissionais (e por consequência os estudantes) estão aptos a projetar para todos os públicos, no que tange conhecer o terreno, a cultura e as dinâmicas de cada local, além de ouvir diretamente a população atingida; além de dividir com esta população a autoria dos projetos com os planos e uso posterior.

Fabio Valentim apontou que "os arquitetos são mais abertos a entender que os projetos mais legítimos têm um processo de participação popular". Para ele, o mais importante em qualquer projeto é a discussão sobre o espaço urbano e sua apropriação.

Para Abílio Guerra, metrópoles como São Paulo, não são mais capazes de ter seus planos baseados em longo prazo. "Apropriação carrega consigo a questão de efemeridade, que pode acontecer agora, mas pode desaparecer depois. Os projetos têm que prever essa dinâmica. [...] Afinal, nós fazemos espaços para que sejam apropriados".