O que nos une nessa existência?

03/09/2019

     Texto redigido pela aluna Laura Cascelli Oliva para seu discurso como oradora dos formandos do 1º semestre de 2019 da turma de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.



A oradora Laura na leitura do discurso. foto: Júlia Maria
A oradora Laura na leitura do discurso. foto: Júlia Maria

     "Ser escolhida para oradora da turma foi um grande prazer, um prazer um tanto desafiador. Éramos muitos formandos, muitas cabeças pensantes. Cabeças que viveram de diferentes maneiras e tiraram conclusões distintas entre si sobre esses anos de faculdade. Sabia que seria impossível traduzir e reunir tudo aquilo que cada um pensava e sentia, mas queria que naquele momento nossas percepções se igualassem e que por um instante nos encontrássemos na mesma frequência.

     Por isso resolvi traçar nossos pontos em comum e me perguntei o básico: o que nos une nessa existência?

     Assim, cheguei à conclusão de que talvez a coisa mais simples e inevitável fosse a forma na qual existimos. Afinal, somos todos humanos e é nessa forma que nos encontramos.. aqui, ali, como pessoas, como arquitetos ou em qualquer outra profissão.

Profa. Dra. Angélica Alvim, diretora da Fau Mackenzie e ex prefeitoDr. Fernando Haddad, patrono da turma. foto:  Klaus Pereira
Profa. Dra. Angélica Alvim, diretora da Fau Mackenzie e ex prefeitoDr. Fernando Haddad, patrono da turma. foto: Klaus Pereira


Boa noite a todos

Boa noite queridos professores, pais, familiares, convidados

E amigos

Antes de me apresentar, quero contar pra vocês que tomei a liberdade de me apropriar do poema "Morte e Vida Severina" do autor João Cabral de Melo Neto.

Sendo assim,

Mais uma vez, boa noite

Meu nome é Laura

Mas podem me chamar de Severina

Severina filha de Maria

Maria Lúcia

No meu caso

E de seu Sabino

Que coincidentemente rima com Severino

E entre muitas Severinas, provavelmente filhas de severinos e Marias

Eu... Sou só mais uma.

Estranho né?

O quão estranho seria se meu nome realmente fosse Severina?

... Vocês, não estranhariam?

... Uns podem dizer: "é mesmo.. é um nome antigo"

Mas sabemos que vai além...

Não sabemos?...

Nunca conheci nenhuma severina, ou severino que tivesse ido a universidade

não costumamos ver severinas dentro de universidades

pode ser que vocês conheçam..

mas..

Eu continuo me chamando Laura.

É, meus amigos..

tivemos sorte!

Muita sorte

e privilégio

só por esse dia nossas histórias já se tornam diferentes da história do Severino, filho de Maria e do finado Zacarias que saiu do sertão pra procurar trabalho na cidade grande

que passou fome quando criança,

que mal sabe escrever seu nome,

realidade que é passado para alguns, mas ainda presente para muitos outros,

Mas... o que que isso tem a ver com esse dia de formatura?

Isso tudo é pra dizer que precisamos tomar consciência dos nossos privilégios

Também frutos de muito esforço, eu sei

De pais, as vezes severinos, família, professores e nós mesmos

Sejamos gratos a isso!

Nossas histórias, à partir de hoje, já se distanciam das histórias de muitos.. sendo severinos ou não

Nossa formação deve nos conscientizar

... Que não nos esqueçamos nunca que

Somos todos humanos!!

É díficil escrever em nome de tantas pessoas

Foram muitos anos de curso

Muitos anos de convívio

Lidos e vividos de diferentes maneiras por cada um de nós

Nosso ponto em comum é que vivenciamos o mesmo tema

A arquitetura

Escolhemos esse nome como profissão

Tão plural em seus sentidos

Impossível de ser resumido

Tem gente aqui que gosta de arte

De desenhar

Tem quem goste de interiores

De obra

De cálculo

De render

São infinitos os derivados da nossa profissão

Mas uma coisa está sempre presente

O ser humano

A arquitetura em seus mais diversos sentidos não é uma profissão pra ser vivida na solitude

Ela depende

Ela precisa

É carente

Não existe coisa mais bonita do que ver a arquitetura sendo vivida

Tocada

Provada

É um retrato de uma pessoa, de várias pessoas ou de uma cidade

O resultado de muito trabalho da nossa parte

São leituras de personalidades e o entendimento de que existem vidas que vão ocupar, morar ou enxergar aquele lugar.

Acredito que nosso percurso pela faculdade também foi por aí

Trabalhos em grupo

Projetos exaustivos

Mas nunca sozinhos

Nós, assim como a arquitetura

Também dependemos da troca

Das amizades

De viver em conjunto

Pedir opinião e dividir experiências

Seja com professores ou amigos

E daqui pra frente também será assim

A vida do arquiteto também não é na solitude

Dependemos

Precisamos

Precisamos ter pra quem projetar

Somos quem projeta

E dependemos de quem executa

Então mais uma vez

Não nos esqueçamos

Que somos todos humanos!!

Acabamos de subir para um próximo degrau

Ainda uma tela em branco

Cheia de surpresas e possibilidades

Os tempos de agora não estão fáceis, sabemos bem...

Vivemos tempos tristes

E tempos frágeis

Em que o poder distorce personalidades

E que o poder que deveria nos representar está nas mãos daqueles com as personalidades mais distorcidas

Vivemos tempos rasos

Tempos lentos e vazios

Vivemos tempos assustados

desgastados e surrados

Pelo que foi

Pelo que é

E pelo que teme ser

Pessoas perdem vidas por um nada

Pessoas perdem vidas por conta de não pessoas

Vivemos tempos tristes e porcos

Porcos tempos tristes

Onde a vida e a morte são irmãs e não inimigas

Onde a felicidade é reduzida a sorte

Talvez a gente não consiga mudar tudo

Controlar tudo

Mas repito

Que a gente tome consciência dos nossos privilégios

Com o tanto que conquistamos e com o tanto que conhecemos

já podemos fazer a diferença

a nossa diferença

E mais uma vez

Não nos esqueçamos nunca

Nossa essência é de luz, esperança e amor

Somos todos humanos!

Obrigada, meus amigos.



Sobre a autora

Laura Cascelli Oliva é arquiteta e urbanista pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ela foi eleita a oradora da turma de formandos do 1º semestre de 2019.