Mobilidade e o desejo de circulação

13/03/2018

por Hugo Rossini

     Cada desejo que habita o interior de um indivíduo é uma força que impulsiona a algo desejado e gera uma mudança, causando a ação de inclinar-se e conduzir-se para algo ou alguém. Assim os conceitos de desejo e movimento estão entrelaçados, um determinando o outro.

     Movimentar-se faz parte do nosso dia-a-dia. Nos movimentamos para chegar a lugares desejados, encontrar pessoas e realizar qualquer tarefa do dia. O filósofo Félix Guattari afirma que desejo é a vontade de viver que gera movimento. Portanto, a partir das nossas vontades pessoais, nos movimentamos em busca de algo que desejamos ou precisamos, ou seja, o desejo é o motor das nossas ações. Estes anseios e vontades fazem com que milhões de pessoas se movimentem todos os dias em uma metrópole como São Paulo, preenchendo-a com fluxos e percursos por toda sua trama urbana.

     A cidade nasce justamente do encontro de pessoas e interesses que nela se movimentam, gerando ruas, vias e bairros que se sobrepõem com histórias e dinâmicas sociais e econômicas. Assim temos a metrópole.

     Em geral, o cotidiano das pessoas na metrópole gira em torno do trabalho. É a rotina de acordar cedo pelas manhãs, ir ao trabalho, almoçar, voltar para casa à noite e descansar para o próximo dia. Quando se mora longe do trabalho, muito tempo é perdido no trajeto, são horas e horas de deslocamento para ir e voltar, principalmente se o trabalhador mora nas regiões periféricas. É uma rotina cansativa.

     O urbanismo da cidade de São Paulo favorece as classes mais privilegiadas, que moram mais próximas das regiões com mais ofertas de empregos e dos centros comerciais e, portanto, dependem menos do transporte público. Assim, essas pessoas têm mais tempo livre para realizar outras tarefas durante a semana, como ir a academia e a restaurantes, se qualificar fazendo cursos, ir a bares ou baladas para encontrar amigos, etc. Enquanto isso, o dia-a-dia das famílias menos favorecidas, na maioria das vezes, se resume a ir ao trabalho e voltar para casa, muitas vezes sem poder aproveitar o dia para outras atividades. Nestes casos o lazer ocorre sobretudo nos finais de semana.

     Qualidade de vida é ter tempo para usufruir da mobilidade e exercer tudo aquilo que desperta interesse, fluindo livremente pela cidade.

     Existe um desejo forte na cultura brasileira que é "o sonho de possuir a casa própria". Conquistar sua própria habitação seria um sinal de progresso não só para o morador, mas para um país em desenvolvimento como um todo, indicando poder de compra e estabilidade financeira da população. Este sentimento é alimentado há décadas pela mídia e pelo governo. Desta forma, surgiram programas de financiamento nos quais as pessoas adquirem apartamentos, cada vez menores, a serem pagos em parcelas durante 20 ou até 30 anos para poder ter o seu tão sonhado "lugar na cidade". O problema é que estes apartamentos muitas vezes se localizam em áreas desprivilegiadas da cidade, com pouca infraestrutura, urbanidade, transporte público e longe dos pólos de trabalho. Esta realidade ajuda a conservar o cenário da segregação socioespacial de grandes metrópoles, como São Paulo, formando bairros homogêneos, pouco densos e sem diversidade.

     O sonho da casa própria tem perdido a força com o passar dos anos, principalmente entre as gerações mais jovens que tendem a priorizar a flexibilidade sobre a estabilidade. Para a nova geração que ocupa a cidade esta ideia não é tão atraente como foi para seus pais. Possuir casa própria pode dificultar as dinâmicas do cotidiano. Pois, conseguir comprar um imóvel muito provavelmente implicaria em morar em regiões mais periféricas da cidade, tendo em vista os altos preços dos bairros centrais. Os jovens desta nova geração vêm manifestando preferência por residir em apartamentos menores e alugados em áreas mais próximas ao centro da cidade para estarem servidos de uma maior maior infraestrutura para deslocamento, acesso aos locais onde as coisas de fato "acontecem" e pela facilidade de se mudar quando achar que já está no momento de mudar.

     Possuir uma casa própria e viver neste mesmo imóvel a vida toda pode não ser a melhor opção, pois pode não se adaptar às diversas mudanças de dinâmicas da vida. Cada etapa da vida tem suas peculiaridades e apresenta diferentes necessidades. Quando se é jovem faz sentido morar próximo a faculdade, bibliotecas, bares, restaurantes e lugares com uma vida mais agitada; quando se está numa fase mais adulta, é interessante morar em uma casa maior com mais espaço para possíveis filhos e em algum bairro mais seguro, onde eles possam ir ao parque e brincar na rua; após a aposentadoria, morar em uma casa grande perde o sentido e é mais interessante morar em um lugar menor e que demande menos manutenção. Portanto, deve-se considerar a conveniência de mudar de casa conforme o momento em que se está vivendo.

     Atualmente a disseminação dos aplicativos de transporte com motorista particular, como o uber, mudaram as dinâmicas de locomoção na cidade. Os novos aplicativos são muito mais acessíveis financeiramente que os tradicionais táxis e possibilitam que as pessoas se deslocassem com uma maior facilidade, sem depender de veículo próprio ou de transporte público.

     É isso que convém às pessoas que vivem a cidade: maior mobilidade. O que se busca é a maior facilidade para frequentar diversos lugares da cidade, visitar amigos e comparecer a todos os eventos que lhes sejam atraentes. O desejo de mobilidade tornou-se vital no momento em que vivemos. Vale lembrar do Movimento Passe Livre (MPL) que vem crescendo nos últimos anos, principalmente após as manifestações de junho de 2013, quando conseguiram reduzir a tarifa do transporte de várias cidades pelo país. Trata-se de preservar o direito de ir e vir, presente na constituição, assegurando a liberdade de locomoção, que permite que tantos desejos se manifestem na cidade e ocupem suas ruas.

     A mobilidade na metrópole é capaz de gerar prazer. Ir de um lugar a outro, se deslocando na cidade, possibilita novas experiências e interações. Fluir pela cidade permite conhecer novas pessoas, entrar em contato com o tempo e fazer parte de um todo que é a própria cidade, além de ser um instrumento de percepção visual que é capaz de mudar o olhar sobre o espaço a todo instante. Aquilo que está em movimento se oxigena e apresenta vida, já o que está imóvel acumula poeira e não se renova, está parado no tempo e no espaço.


Bibliografia

CARERI, Francesco. Walkscapes. O caminhar como prática estética. São Paulo: Editora G. Gili, 2013. (Originalmente publicado em 2002)

CHAUI, Marilena. Laços do desejo. In: NOVAES, Adauto (org.) O desejo. São Paulo: Companhia das Letras; Funarte, 1990.

GUATTARI, Félix; ROLNIK, Suely. Micropolítica: cartografias do desejo. Petrópolis: Vozes, 2011. 


Hugo Rossini Costa Longa é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2016, onde colaborou com o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Participa do grupo de pesquisa Teoria e Projeto na mesma universidade. Desde 2014 trabalha mo escritório paulista Biselli Katchborian Arquitetos Associados, atuando em projetos de interesse urbano.