Representatividade. Debate situa a importância da comunidade para a qualidade do espaço público

27/10/2017

autor: André França

Representantes de setores artísticos e acadêmicos discutiram, na última terça-feira, 17 de outubro, as diversas escalas da ocupação do espaço público. A mesa foi formada por João Sette Whitaker, professor da FAU-USP e ex-secretário municipal de habitação de São Paulo; Alexandre Urch, fotógrafo especializado; Carolina Guido, do escritório de intervenções Urb-i; Débora Sanches, professora de urbanismo da FAU Mackenzie e Belas Artes; Marcos Felipe, representante da Companhia de Teatro Mungunzá; além da mediação da professora do curso de Design da FAU Mackenzie, Ana Paula Calvo. O evento foi realizado pelo portal Viès Arquitetônico para a XIV Semana Viver Metrópole.

Durante o evento, Marcos Felipe destacou a importância da ocupação representativa do território. "Nos perguntaram sobre o porquê de criarmos mais um equipamento cultural no Centro da cidade, e não promover algo na periferia. Todos somos do centro, moramos e conhecemos a região. Não adianta irmos pra Itaquera se não somos de lá. O melhor é que a população de Itaquera se mobilize e crie algo representativo da sua região". Além da posição, Marcos explicou o funcionamento e os trabalhos sociais promovidos pelo Teatro Mungunzá, erguido com contêineres no bairro da Luz, em plena região conhecida como Cracolândia. O grupo tem por premissa servir de representante e agente integrador para a população local, por meio da produção cultural.

Débora Sanches, professora de urbanismo, relacionou o crescimento da cidade e as históricas lutas por moradia, no que tange a permanência de cortiços e terrenos subutilizados na região central, além da constante emissão de reintegrações de posse de imóveis ocupados por organizações sociais. Em sua explanação, as diretrizes de programas governamentais, como o "Morar no Centro", que tentam reverter o esvaziamento da região, e a marca de a Operação Urbana Centro, em 20 anos de existência, não ter alcançado o resultado social esperado.

João Sette Whitaker, unindo visão acadêmica com a da administração pública, colocou em xeque a relação dos agentes econômicos da definição dos projetos e equipamentos. Para ele, há uma judicialização exacerbada, que retrai a ação do ente público: "O maior problema de São Paulo é o estoque de terras para promover habitação popular. [...] Temos inúmeros prédios abandonados, mas não podemos fazer nada, pois são processos que estão na justiça, por décadas". Ele ainda criticou o preço da terra, que inviabiliza a compra de lotes. "Para um prédio, fizemos a desapropriação e depositamos R$11 milhões em juízo. Mas uma decisão da Justiça definiu que o lote custava quatro vezes mais. É inviável! Mesmo que houvesse dinheiro em caixa, isso seria improbidade administrativa".

Olhar para o Micro

Visando trabalho de caráter local, Carolina Guido elencou projetos realizados pela Urb-i Urban Ideas na região central de São Paulo, e, mais recentemente, junto à estação Berrini da CPTM, na zona sudoeste. No local, a proposição se deu por fazer o projeto em etapas, iniciando com a pintura de solo para ampliação do passeio público. "Primeiro fizemos um estudo de demanda. Depois, no ano de 2016, promovemos um evento, fechando a rua, colocando equipamentos e piso diferenciado, para mobilizar a população a pensar diferente. [...] Agora pudemos fazer a ampliação do passeio com a retirada das vagas de estacionamento e pintura de solo. Aos poucos podemos fazer obras definitivas, ampliar as calçadas e colocar mobiliário." O projeto se identifica com a proposta de "Rua Completa" que engloba a definição de espaços para diversos públicos e atividades.

Alexandre Urch, fotógrafo especializado, disse que os detalhes são essenciais para o entendimento da cidade. Para ele, as intervenções populares têm grande peso na apropriação do espaço urbano, incluindo as pichações, que dariam visibilidade para as edifícios, forçando a recuperação de suas fachadas. Em seu trabalho, aliás, a atenção para as fachadas resgatou a relação do público e do privado por sua relação limítrofe entre os dois planos.

O debate contou com grande participação do público presente, principalmente no que tange a conjunção cultural como agente integrador dos espaços, e a relação intrínseca entre governos e sociedade civil organizada. À síntese, de que processos de negociação e diálogo com a população envolvida tornam-se cada vez mais necessários para a viabilidade, em meio urbano, de projetos de caráter público.