Minhocão: Espaço Conquistado

09/10/2017

I RBR I 1001 . A1
autor: Maria Isabel Camañes Guillén 

Referente às discussões sobre o espaço público do Minhocão, compreendido pelas lentes da arquiteta e urbanista mestre e doutoranda da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A observação da cidade e das relações estabelecidas entre seus espaços públicos e usuários encontrou especial interesse quando abordou as nuances estabelecidas no Elevado João Goulart, o Minhocão. A partir de suas apropriações pelos diversos tipos de usuários daquele território obtém-se entendimento do cotidiano do local, onde e como seus efeitos são produzidos e que mecanismos e contraposições imprimem.

Verifica-se no espaço dito contemporâneo uma dicotomia intocável na instituição e na prática que se manifesta ainda distante, entre o espaço privado e o espaço público, entre o espaço da família e o espaço social, entre o espaço cultural e o espaço útil, entre o espaço de lazer e o espaço de trabalho; todos são ainda movidos por uma secreta sacralização. (FOUCAULT, 2001: 413)

No sentido de fugir desta sacralidade na leitura do território Minhocão, busca-se nas heterotopias de Foucault analogias às apropriações encontradas nestes territórios. Verifica-se a transformação de espaços ao promoverem as ocupações neste território de estudo, rompendo não só no sentido de transgredir a lei de propriedade, no caso pública de apropriar-se do bem "alheio", mas no sentido de desequilibrar a ordem vigente, a ordem heterônoma, imposta, não participativa e, por tudo isso, não democrática. Os diferentes usos do espaço urbano, são questionados nas ocupações dos moradores de rua que se ocupam do local que é público e ocupado por pessoas que passam a dar vida a esses espaços, tornando-os, realmente, parte do espaço urbano. Isso, porque, sem os sujeitos a reprodução destes espaços e sua significação para o contexto mais amplo da cidade torna-se nula.

Por mais relevante que seja o substrato, do ângulo da mudança social é evidente que ele não tem interesse isoladamente; não importa o espaço social "morto", mas sim o espaço "vivo", que é "vivificado" pela sua relação com os seus produtores. E o espaço social, em suas várias facetas, por condicionar as relações sociais, é uma dimensão essencial da sociedade concreta. (SOUZA, 2006, p. 111)

Verificamos uma vivência efêmera na contemporaneidade, as reivindicações e ações de movimentos sociais, seja pelas questões culturais, de segregação sócio espacial, tomam outras vertentes através da força dos movimentos coletivos e do poder da imagem, carregadas de representação simbólica.

A observação do Minhocão, como espaço público conquistado, manifesto como cicatriz urbana e transformado em parque. Local de conflitos e de conquistas, é visto como aberração e também como oásis urbano entre a aridez da cidade consolidada.

A cidade de São Paulo vem debatendo a questão da transformação do grande viaduto que divide os bairros da Santa Cecília, Campos Elísios e Barra Funda em Parque ou no possível desmonte definitivo. Este último, tema defendido pelos mais nostálgicos que acreditam que a região voltaria a conquistar o requinte de tempos passados.

Esse verme urbano sem pé nem cabeça costuma ser apreendido de maneira fragmentada. Por cima, por baixo, ou como segmento de algo do qual não se vislumbra começo nem fim. Para motoristas usuários, é sempre trecho de trajeto maior; para transeuntes de baixos e entornos, são pórticos de concreto que se sucedem, perdendo-se na distância e escondendo o lance seguinte. (CAMPOS, 2018, p.23).

A Câmara Municipal de São Paulo aprovou no dia 20/09/2017, em primeiro turno, o projeto de lei que prevê a desativação gradual do Minhocão, criando o 'Parque Minhocão', que deverá estar plenamente em funcionamento em até quatro anos. O vereador José Police Neto, um dos autores da Lei, destaca que a determinação já consta do Plano Diretor e que foram necessários cinco anos de embate na Câmara. Para ter efeito de lei, será necessário que a medida ainda passe por nova sessão de votação na Câmara, ainda sem data para acontecer. Caso aprovada, ela seguirá para sanção do prefeito João Doria.

Já os baixos do grande viaduto, de 3,5 km de extensão são tomados por pixos, grafites e colagens que se sobrepõem umas às outras caracterizando grandes mosaicos e estabelecendo juntamente com a sombra do grande artefato, uma aura de submundo, onde se manifesta a arte dos excluídos, a arte não autorizada. As apropriações artísticas que lá se estabelecem têm caráter temporário e tomam a estrutura, principalmente dos pilares, como suporte, as intervenções podem ser caracterizadas como Arte urbana.

Neste território, distinto do superior, os grandes pilares do viaduto constituem suplementos na sua parte inferior e estrutural. Derrida, apud Tschumi , relaciona suplemento às atividades não previstas em sua intenção original, adicionando sentido à obra, que supera a ideológica, descrita como suporte, através de novos sentidos e significados.

As intervenções temporárias funcionam como catalisadoras de relações de proximidade e intimidade, de conexões tanto com o próprio espaço, quanto com os indivíduos da urbe. Quando se reflete a respeito do atual estágio da modernidade, que é a condição efêmera dos nossos dias e do mundo contemporâneo, visualizam-se traços que podem ser considerados negativos, no espaço coletivo, tais como hostilidade, individualismo e relações superficiais entre os indivíduos.


O Minhocão é o suporte onde se desenrolam as manifestações negativas e positivas, pautadas na aceleração da vida contemporânea e na flexibilidade e leveza em que se move o indivíduo dentro desse contexto. Essa leveza pode ser caracterizada como o aspecto positivo que impulsiona esta pesquisa e que implica no aspecto temporal das atividades observadas naquele território, resultando em uma diversidade de modos de usar; seja como temporalidades do cotidiano, seja como diferentes territorialidades propostas pelo usuário, por meio da apropriação de espaços que expressam as relações de convívio cotidiano, além de também poderem intervir de alguma forma no território, outorgando-lhe atributos diferentes, como no caso do Minhocão, que se torna espaço de convívio e de conflitos.

  1. FONTE: Disponível em: <https://arteessenciadavida.blogspot.com.br/2014/02/grupo-esparrama-da-janela-de-um.html>. Acesso em: 25.11.2015.

É possível classificar tais intervenções em: espontâneas; aquelas apoiadas nas atividades do cotidiano; ou eventos, aquelas que possuem um sentido de particularidade, pelo fato de produzirem transformações mais significativas aos espaços públicos em que se aplicam, seguindo, portanto, temporalidades distintas: as espontâneas acontecem com uma maior frequência e as singulares, denominadas aqui de eventos, tem frequencia menor, são eventuais. As primeiras estão apoiadas ao uso cotidiano, e as segundas, ao fato de possuírem habilidades requalificadoras do espaço urbano "[...] eventos memoráveis deixam marcas duradouras nos lugares e dão forma aos espaços públicos, transformando pouco a pouco as cidades". (FONTES, 2013).

Há também as qualidades do subversivo e ativo, a rede fragmentada e temporária de estruturas funcionais que ocupa os interstícios do tecido urbano e promove a escrita temporária de seus espaços públicos e que revela uma habilidade subjetiva na tarefa de conquistar o espaço: trata-se de formas de resistência à normatização do espaço público da cidade contemporânea, trazendo toda a dimensão subversiva da apropriação temporária.

Estas apropriações temporárias podem ser comparadas às heterotopias, dissolve-se a noção de um lugar ao qual se acopla uma identidade única e uma função exclusiva. Um mesmo espaço-lugar projetado e construído segundo lógicas funcionais estritas comporta múltiplos estratos superpostos ou sobrepostos e temporalidades cambiantes, redesenhando os limites, os recortes e as temporalidades usuais dos espaços urbanos. (GUATELLI, 2012)

Essas intervenções se pautam na intenção estética ou transformadora, como as intervenções artísticas ou arquitetônicas, que se caracterizam pela "vontade de interagir, ativar, produzir, expressar, mover e relacionar, agitando os espaços e as inércias através dos acontecimentos ou eventos. " (FONTES, 2013).

"Espacialidades e temporalidades diferentes, diferidas: outras. Um mesmo espaço, constituído por um conjunto de elementos singulares, que são percebidos e espaçados em sua materialidade e extensão, pode ser um outro dele mesmo em diferentes tempos, embora alguns desses elementos, seus atributos e relações permaneçam relativamente estáveis. A um mesmo tempo, em um mesmo instante, nele convergem e sobrepõe-se diferentes alocações, temporalidades e territorialidades, acoplando-se, fazendo com que em uma mesma localidade múltiplas espacialidades e tempos coexistam, e que inumeráveis interpretações e projetos possam ser construídos. " (CASTRO, 2015, p.9)

Ademais, podem ser apontadas as qualidades do interativo, do participativo, do relacional, da qualidade de interação dos usuários de conexão e relação com os espaços de apropriação das intervenções e também com o outro, conforme relacionado na tabela 01.

Pode-se dizer que esses conceitos revelados são:

• Dinamismo: Nova atitude dos usuários em relação ao espaço, que toma outras configurações. A reação dos usuários se altera conforme as diferentes apropriações.

• Reversibilidade: Capacidade elástica do espaço. Após diferentes situações, volta ao uso para que foi concebido, o tráfego de veículos.

• Flexibilidade: Abertura para diferentes apropriações. O Minhocão tem a característica de abrigar diferentes usos, apropriações e intervenções em tempos e formatos distintos.

• Imprevisibilidade: Não existe rigidez nos usos desse espaço. As configurações podem se manifestar em diferentes formatos.

• Conexão: Existe uma fluidez e articulação de lugares e pessoas.

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Referências bibliográficas:

AUGÉ, M. Não-lugares: Introdução a uma Antropologia da Supermodernidade. Campinas: Papirus. 1994, p.73.

CAMPOS, Candido Malta. Eixo da Ambiguidade: a região da Avenida São João nas inversões do tempo. In: ARTIGAS, Rosa; MELLO, Joana; CASTRO, Ana Claudia. Caminhos do Elevado: Memórias e Projetos. São Paulo. Imprensa Ofi cial do Estado de São Paulo, 2008. p19/43.

CASTRO, Luiz Guilherme Rivera. Outros espaços e tempos, heterotopias. In: 1° Congresso Internacional Espaços Públicos, 2015, Porto Alegre. Anais do 1° Congresso Internacional Espaços Públicos [recurso eletrônico]. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2015. v. único. p. 1-12. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1807535/mod_resource/content/1/Castro.pdf. Acesso em: 20.ag.2017.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano: artes de fazer. Petrópolis: Vozes, 2011.

DELEUZE, Gilles, GUATTARI, Felix. Mil Platôs, capitalismo e esquizofrenia. Vols 2,3,4 e 5. Rio de Janeiro, Editora 34,

FONTES, Adriana Sansão. Intervenções temporárias, marcas permanentes. Apropriações, arte e festa na cidade contemporânea. Rio de Janeiro: Casa da Palavra - Faperj, 2013.

FOUCAULT, Michel. O corpo utópico, as heterotopias. Posfácio de Daniel Defert. [tradução Salma Tannus Muchail]. São Paulo: n-1 Edições, 2013a.

GUATELLI, Igor. Arquitetura dos Entre Lugares: Sobre A Importância Do Trabalho Conceitual. São Paulo: Editora Senac, 2012.

GUILLÉN, Maria Isabel Camañes et al. Sob [re] o Minhocão: apropriações, arte e festa. 2016.187 f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo. Disponível em: https://tede.mackenzie.br/jspui/handle/tede/2887. Acesso em: 20.ag.2017.

SOUZA, Marcelo Lopes (1998), O que pode o ativismo de bairro? Reflexão sobre as limitações e potencialidades do ativismo de bairro à luz de um pensamento autonomista. Dissertação de Mestrado em Geografia. Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, 1988.

TSCHUMI, Bernard. Architecture and disjunction. Cambridge, MA: The MIT Press, 1999.



> Maria Isabel C. Guillén é Técnica em Edificações pela Escola Técnica Federal de São Paulo (1990), graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo (1995), licenciada em Artes pelo Centro Universitário Claretiano de São Paulo (2013) com especialização em em Educação através do curso Magistério Superior pelo Centro Universitário Belas Artes de São Paulo (2012). É Mestre em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (2016) e atualmente é Doutoranda na mesma instituição (2017-2020), onde também atua como pesquisadora participando de Grupos de Pesquisa. Atua como docente de Cursos de Arquitetura e Urbanismo, Design de Interiores e Engenharia Civil. Atua nas áreas de projeto de arquitetura, projeto e cidade e gerenciamento de obras. Atua no desenvolvimento de projetos de arquitetura e gerenciamento de projetos e obras, com escritório próprio.