Interstício: um olhar na contemporaneidade

24/10/2019

     Reflexão do tfg desenvolvido sob orientação de Luciano Margotto (monografia) e Lucas Fehr (projeto) na UPM. convidados das bancas: Daniel Candia (interno), Francisco Fanucci (externo), José Tabith (interno).

"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara".

(SARAMAGO, 1995)

     

     Pode parecer prolixo inaugurar o texto com uma epígrafe, contudo tal forma seduz por ir ao encontro do tema aqui ensaiado oportunamente. Ao levar a situação da cegueira ao absurdo em sua narrativa (em que "todos" cegam e mergulham na brancura infindável), José Saramago por meio de alegorias sugere a reflexão sobre a sociedade em que vivemos, ou seja, a alienação do indivíduo contemporâneo em relação ao mundo e a ele mesmo.   

     Logo, qual seria a lógica da construção da paisagem física e psíquica da cidade atual, visto que a realidade mostra-se cada vez mais paradoxal no sentido de sua leitura? em que de um lado apresenta-se a nebulosidade da percepção, sua fragmentação desagregadora e do outro lado o império da nitidez e da hipervisibilidade em que tudo está exposto e visível. Afinal, quem vê, o que vê e como vê?

     De forma psíquica essa disjunção e impercepção do outro e da configuração contemporânea influem diretamente no pensar a cidade. A contingência do pensamento é ser lugar, não há pensamento sem a experiência de lugar. A aceleração e 'descolamento' das camadas que se sobrepõem mas não penetram o solo ferem essa lógica. A velocidade aumenta o empobrecimento dos lugares uma vez que nosso olhar desfila sobre as coisas, reduzindo as pistas das arquiteturas, seu meio passa a ser o não-lugar do transitório.  

     Logo, a codificação da linguagem vigente revela não o estado dos sítios mas sim a rapidez de seu desaparecimento, em que os vários períodos estilísticos sucedem-se tão depressa que convertem-se em sequências do desmoronamento do arquitetônico. A inquietação primeira desta pesquisa parte do pensar essa condição no cenário de preexistências do período industrial, tendo enquanto fio condutor desmistificar a tensão que envolve o diálogo entre contemporaneidade e preservação. Assumindo o pensamento de que não trata-se de modelos ou métodos de intervenção, mas sim de continuar construindo cultura! Reunindo nos locais tudo quanto reconstitui a sua densidade e mantém sua complexidade aos mais altos níveis, enquanto que com o tempo os materiais e as necessidade continuarão a mudar espontaneamente.

"(...) um projeto de intervenção em um sítio histórico deve levar em consideração a dicotomia hoje existente entre força do patrimônio construído e a contemporaneidade mutante à sua volta. Ou seja, enxergar as condicionantes apresentadas em diálogo com o significado impresso em suas réstias. Este enclave de patrimônio histórico deve ser ativado em favor da comunidade pelo seu potencial urbanístico; deve colocar a história como aliada na construção da cidade contemporânea e, por outro lado, fazer com que o patrimônio reviva em bases atuais de relacionamento, usos e necessidades."

(Eduardo Souto de Moura sobre o projeto de Santa Maria do Bouro, 2001)


     Interstício (investigação que propõe o olhar para os vazios resultantes dos cheios, ou seja, os espaços 'entre' edificações), enquanto objeto arquitetônico, busca ensaiar ações através da justaposição da cidade e seus vazios, não só na forma literal da palavra mas no seu latente esvaziamento, e ao mesmo tempo transbordamento, de significados. Sua proposta, apesar de parecer uma incisão que alastra-se no lote em que atua, é concebida na intenção primeira de instrumento que endereça acessos e promove conexões priorizando seu olhar para o preexistente. Seu desenho nasce não como forma máxima de expressão mas como resposta dessa articulação pretendida ao lugar e exercício do percurso enquanto prática estética

     Do ponto de vista do partido arquitetônico, o projeto segue duas frentes tectônicas: sendo uma a arquitetura que emerge do chão, que advém da espessura histórica de suas paredes (investigação/reconhecimento) e a outra uma arquitetura que paira sobre o chão e promove um 'descolamento' e aproximação do olhar por meio de outras perspectivas.

objeto arquitetônico: investigação e intervenção na Cia. Antárctica Paulista | mooca-sp,br_
objeto arquitetônico: investigação e intervenção na Cia. Antárctica Paulista | mooca-sp,br_

Desvio sobre o processo, início de uma conversa

Uma reflexão acerca de conversas, processo e desenvolvimento de tfg.

     Entrar no tfg pode ser um grande "convite ao tudo!", em que vários assuntos mostram-se fascinantes, contaminantes, assim como as pessoas que se envolvem no processo, no qual o caráter experimental reflexivo se faz protagonista. Ainda assim, trata-se de uma investigação acadêmica, em que sua memória tradicional apresenta-se de maneira metodológica, homogênea e, principalmente, comprovável.

"(...) como criar uma sensação de turbulência permanente em um meio estável?"

(Rem Koolhaas, "Atlanta Interview", in Rem Koolhaas e Bruce Mau. 1997)

     Ao considerar a fala de Koolhaas enquanto uma abstração desta ideia de desenvolvimento, apropria-se de tal questionamento para dentro da discussão do trabalho final de graduação. Em que as inquietações são múltiplas e diversas e há o cuidado quanto à linguagem acadêmica. Essa discussão não tem domínio e pretensão de estabelecer critérios, tampouco conclusões, mas sim lançar um olhar experimental sobre o caminho, os diversos caminhos, e seus "acidentes" de percurso.

     Diante disso, revela-se a intenção da conversa a respeito do ensaio. Tendo em vista que cada vez mais as coisas mostram-se turvas e incertas, parecendo mais cabível a recusa da ideia de "caminho linear" para se observar as coisas. Em que manifesta-se o conceito da interpretação, em que há posicionamento, mas não uma só opinião/entendimento. O propósito do ensaio é ser dúvida e não certeza. Refere-se mais à descontinuação do que assertividade, desperta o efeito e desejo da conversa, ou seja, não resulta numa convicção epistemológica. É um descaminho, um desvio, como expõe Pedro Duarte em seu artigo "O elogiável risco de escrever sem ter fim", feito para a coluna Ilustríssima do Jornal Folha de S.Paulo.

     "(...) esse diagnóstico mal consegue esconder sua ideologia evolutiva, que situa o ensaio como etapa infantil a ser superada na fase adulta do conhecimento amadurecido, ou seja, preciso e comprovável. O ensaio, contudo, não é menor ou maior, nem anterior ou posterior, à ciência. É diferente dela." (DUARTE, Pedro. 2016)

     Segundo Duarte, o descaminho é um caminho, só que desconhecido. Ainda assim não assume o papel de inventividade, não busca novas coisas, mas sim estabelecer novas relações entre as coisas, descarta-se a linearidade narrativa em prol de outras possíveis associações. É um risco! Ensaiar é experimentar, refere-se à desconstrução do pensamento e acaba por não ter fim, uma vez que não pretende atingir uma totalização perfeita de seu objeto. É um chamamento à curiosidade, subjetividade, porém não é autorreferente.

     A natureza do descaminho não possui limites bem definidos, flerta com os outros, é mais que interdisciplinar, é indisciplinado. Pois há uma lógica antropofágica no ensaísmo, que consome intensamente o que admira, não pede licença pra falar de seu objeto, por esse motivo, pode estabelecer o cruzamento de diferentes áreas do saber, é um incentivo à constante construção de cultura. Tendo como produto um texto pouco direto, mais livre de métodos, apesar de poder (e muito provavelmente sim) conter uma racionalidade organizacional. 

     Por fim, o grande "fenômeno" de ensaiar é poder errar. Na verdade, é sempre errante. Nem sempre bem visto, porém é um estímulo ao "pensar sem corrimão" como sustenta a metáfora de Hannah Arendt. Desse modo, numa primeira perspectiva pode-se dizer que um dos grandes "baratos" do 'tfg' é o risco constante de falhar, e poder mesmo falhar, assumindo a postura investigativa e enxergando o caráter hipotético e múltiplo de um mesmo objeto/assunto, tendo em mente a constante possibilidade de reconfiguração e rediscussão dele, assim como posteriormente enxergar a reverberação dentro da lógica íntima autor e obra, pode ser intrigantemente mutante e entrelaçada.

     "somos traídos por nossos hábitos analíticos e conceituais, por exemplo, o hábito de usar a linguagem para dissecar a experiência, e assim subtrair da nossa mente os benefícios da intuição. Porque, apesar de toda beleza, um conceito distinto sempre representa um encolhimento do sentido, um corte que apara as pontas soltas, quando são as pontas soltas que mais importam no mundo dos fenômenos" 

(Joseph Brodsky. apud. Luciano Margotto, em "Lições de Arquitetura: leituras a partir de poéticas. 2016." ) 


Leia a monografia na íntegra aqui 


Bibliografia

DUARTE, Pedro. O elogiável risco de escrever sem ter fim. Folha de São Paulo: Ilustríssima. São Paulo. 28 fev. 2016

KOOLHAAS, Rem; MAU, Bruce. S,M,L,XL. Cambridge. The Monacelli Press. 1995.

MARGOTTO, Luciano. Lições de Arquitetura: leituras a partir de poéticas. 2016. 246 f. Tese (Doutorado) - Curso de Arquitetura e Urbanismo, Fauusp, São Paulo, 2016.

MOURA, Eduardo Souto de. Santa Maria do Bouro: Construir uma pousada com as pedras de um Mosteiro. Porto: White & Blue, 2001.

PEIXOTO, Nelson Brissac. Paisagens Urbanas. São Paulo. Senac. 1996. 

SARAMAGO, José. Ensaio sobre a Cegueira. Lisboa: Bibliotex Editor, 2003. 

ZONNO, Fabiola do Valle. Lugares Complexos: poéticas da complexidade entre arquitetura, arte e cidade. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2014. 




Sobre a autora

Giovanna Czumoch é arquiteta e urbanista formada pelo Fau Mackenzie.