FAU Mackenzie : Reloaded

19/04/2018

     Um manifesto que analisa o cenário contemporâneo da produção imobiliária nacional; traz em voga a precarização do ensino superior nas cursões formais e informais; e evidencia a falta de posicionamento crítico em relação a um cenário catastrófico, com a comercialização da cidade e a paralisação crítica do discente da graduação. 

     A II Semana de Integração da FAU Mackenzie, realizada na segunda semana de abril de 2018, lançou a seguinte temática para as equipes participantes: O que nos tensiona?

     Em nosso desenvolvimento particular, após discussões entre os integrantes da equipe e amparados pelo grupo de professores presente na sala, chegou-se à conclusão de que a tensão a ser abordada era uma angústia. Uma decepção em não reconhecer, fora dos limites da academia e de seus debates, um número significativo de produções arquitetônicas capazes de transformar e impactar positivamente na cidade.

     Detectou-se então uma relação de afastamento entre a vida acadêmica e a realidade fora dela, dominada por um mercado que majoritariamente opta pelo quantitativo em detrimento ao qualitativo, que produz sempre "mais do mesmo", com a repetição de soluções em contextos urbanos e sociais totalmente diferentes. Além disso, o mercado também nega a cidade e sua dimensão humana e ignora possíveis soluções aos problemas urbanos. Com isso, acabam por intensificá-los na busca do lucro máximo que gera uma realidade, que se comparada à produção acadêmica, faz desta uma grande utopia.

Esse afastamento logo se traduz na ruptura da PRÁTICA com a TEORIA, que se evidencia com constância no interior das mais tradicionais escolas de arquitetura do país. Essas que usualmente eram referenciadas as faces teóricas na arquitetura que resultavam nos exercícios projetuais, todos passíveis de realização prática.

     Nesse ciclo vicioso, o contexto profissional e acadêmico se encontra paralisado enquanto o mercado continua multiplicando erros urbanos. Essa imobilidade não permite com que o arquiteto e urbanista se manifeste e ofereça seus aparatos técnico e sensível como potência projetual que cesse tal produção urbana errônea. Essa ausência de posicionamento crítico, por parte dos futuros e atuais técnicos, possibilita que o controle de formação das cidades seja do mercado imobiliário, auxiliado por publicitários e vendedores estrategistas, que ditam a pauta dos novos empreendimentos. Como resultado, a publicidade imobiliária passa a focar em elementos supérfluos que "complementam" e "valorizam" tais empreendimentos.         A situação ainda se agrava quando nessas campanhas publicitárias, "modelos de vida" e de "famílias", verdadeiras utopias, começam a substituir o objeto arquitetônico, como demonstram as propagandas a seguir. 

     Nota-se que nos últimos anos a aprovação de diversos cursos de Arquitetura e Urbanismo pelo MEC (Ministério da Educação) em universidades de ensino à distância, produzem profissionais que se ausentam frente à discussão urbana contemporânea e, consequentemente, a discussão das dinâmicas atuais das cidades brasileiras são deixadas de lado. 

     Somando-se a essa problemática da formação dos futuros arquitetos, páginas em mídias sociais como Instagram e Facebook que  constituem seu público a partir de postagens de referências projetuais mecânicas, sem qualquer análise das situações apresentadas, suas justificativas técnicas  e as  problemáticas do projeto, ou seja, há falta de posicionamento crítico. Constata se esse argumento quando um dos maiores perfis de referências projetuais do mundo, com aproximadamente 1 milhão e 300 mil (número de Abril de 2018) seguidores do mundo inteiro, tem sua criadora, ainda estudante de arquitetura em uma das universidades mais tradicionais de âmbito internacional, é convidada para dar uma palestra sobre a "importância de se posicionar em redes sociais"¹, em uma das maiores feiras de construção civil, a FEICON BATIMAT2018². Pergunta-se então: que tipo de posicionamento essa pessoa/página possui? 

     Aparentemente nenhum. 

     Como consequência, que tipo de arquitetos estão sendo formados a partir de divulgações de projetos, sob os quais não se fez nenhuma análise ou explicação? 

    São eles que justamente se encontram acomodados perante a situação catastrófica das nossas cidades.

     Outro aspecto que comprova o contexto caótico da produção arquitetônica e urbanística atual é a divulgação inexistente dos empreendimentos imobiliários - que, segundo o mercado  são diferenciados, exclusivos e de boa arquitetura -  em portais, mídias digitais e publicações de autores que realmente entendem do assunto. Em português claro: onde está o reconhecimento dos edifícios que constituem (infelizmente) a maioria esmagadora de nossas cidades? Panfletos e anúncios de venda obviamente não se incluem dentre os produtos de autores que realmente entendem do assunto. 

     É evidente que esses tipos de "influenciadores" da era digital que divulgam arquiteturas e possuem tão grande alcance poderiam fazer mais pelo cenário atual aqui colocado em pauta. Até mesmo arquitetos brasileiros de renome internacional poderiam se manifestar retratando essas questões, provocando discussões e debates que um dia poderiam alterar esses paradigmas, considerando o potencial de seus discursos.

     Tendo em vista o que foi mencionado, conclui-se que na realidade contemporânea, o posicionamento crítico em relação à arquitetura perdeu seu espaço,principalmente quando se trata da produção em massa. O que vigora é a lógica do mercado com a qual convivemos cotidianamente, ignorando-a, e quando se adquire a consciência e o sentimento de insatisfação, pouco se faz em relação. Fomos negligentes e acabamos sendo devorados por empreendimentos imobiliários "únicos", "luxuosos", "exclusivos" e "gourmets".

     Diante dessas reflexões e panoramas do contexto das cidades comandadas pelo mercado imobiliário, da publicidade utópica, da falta de posicionamento crítico e da formação acadêmica defasada dos futuros profissionais da área, construiu-se uma campanha de conscientização acerca do contexto anteriormente explanado.

A CAMPANHA 

     A campanha abordaria então com ironia e humor a seguinte questão: 

     E SE A LÓGICA DO MERCADO IMOBILIÁRIO FOSSE APLICADA AO ENSINO DE ARQUITETURA ?... 

     Como estratégia de propagação da campanha, optou-se por construir uma FAKE NEWS (Notícia Falsa)³, e divulgá-la em páginas e grupos específicos de redes sociais.

     O principal produto da campanha foi um documento falso que supostamente teria sido emitido pela coordenação e reitoria da universidade. O comunicado seguia exatamente os mesmos padrões dos documentos oficiais da academia e alertava sobre uma mudança da Matriz Curricular, que passaria a ser composta por disciplinas e condutas oriundas do cenário tratado acima. Era alertado que alunos matriculados até o 3º ano da graduação teriam que refazer o que foi cursado até então, agora sob a ótica de tal cenário da realidade. Além disso alunos matriculados no TFG (Trabalho Final de Graduação), passariam a ser atendidos virtualmente, sem presença física nas instalações da faculdade, e teriam de ser avaliados por uma banca específica que conferisse a viabilidade de mercado do exercício de projeto.

     O documento foi postado em um grupo no Facebook com mais de 7.400 membros ligados ao curso de arquitetura e espalhado por diversos grupos de WhatsApp, como se uma aluna tivesse recebido por e-mail tal aviso. Membros do grupo que ajudaram na elaboração dessa campanha também se manifestavam, afim de gerar repercussão e notificações para pessoas conectadas a elas nas redes sociais.

     Com o tempo, comentários e curtidas/reações se acumularam e os membros infiltrados começaram a postar supostos prints de avisos de mudanças no projeto pedagógico, também falsos, da página do TIA (Terminal Informativo Acadêmico), pelo qual geralmente são divulgados documentos e avisos da universidade.

     Junto a essas "capturas de tela", foi divulgado um novo documento com a lista das novas disciplinas e suas correspondências em relação ao currículo vigente.   

     Pouco tempo depois, alertou-se que se tratava de uma campanha para a II Semana de Integração, e manifestações de apoio e revolta, tomaram mais forças. 

     Junto com a campanha virtual, peças gráficas e colagens foram produzidas a fim de simular as futuras entregas de uma faculdade guiada pelo cenário em questão. 


     Além disso, memes (tirinhas e montagens de imagens humorísticas) foram produzidas a fim de viralizar e chamar a atenção para a campanha. Todo esse material foi impresso e espalhado pelas paredes da faculdade 

CONCLUSÕES E RESULTADOS

    No total, em pouco mais de 2 horas no ar, sem ser desmentida, a publicação principal no Facebook obteve 179 curtidas/reações e 231 comentários e 1 compartilhamento. Estima-se que um número muito maior de pessoas tenha sido notificado sobre a postagem, os comentários e curtidas. Professores, alunos e profissionais da área se manifestaram e se mostraram inconformados com tais mudanças, por diversos motivos. A tensão, tema da II Semana de Integração, foi então estabelecida, superando quaisquer expectativas.

     Entretanto, apesar de uma ótima repercussão, a grande maioria dessas manifestações registradas nas redes sociais demonstravam que a principal preocupação dos estudantes não era a adequação do curso em relação ao mercado imobiliário e ao contexto de produção e formação arquitetônica exposto, mas sim a necessidade da rematrícula em disciplinas equivalentes às que eles já teriam cursado. De que vale um "atraso" na formação, ou a necessidade de se refazer algumas matérias, perante um futuro cenário mais catastrófico do que o atual? Esse respaldo não constatou novas percepções sobre as temáticas anteriormente abordadas, apenas reafirmou o que já havia sido dado como uma das motivações dessa campanha: a falta de posicionamento crítico e a passividade de arquitetos e estudantes.


Notas:

     Este trabalho foi produzido por um grupo de estudantes da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, durante a segunda Semana de Integração - atividade acadêmica caracterizada pela formação de um grande ateliê vertical que engloba alunos dos cursos de arquitetura, urbanismo e design, para a produção de um objeto síntese, oriundo da temática: O que nos tensiona? - e seu intuito foi propor uma série de materiais provocativos sobre a precarização do ensino superior em âmbito nacional e, especificamente, no cenário da arquitetura e urbanismo. 

1- Palestra: A Importância de se Posicionar em Redes Sociais. Palestra ministrada pela estudante de Arquitetura e Urbanismo Amanda Ferber, que se diz amante das artes e é dona do perfil de arquitetura mais seguido do Brasil e quinto mais seguido do mundo: @architecturehunter.

2- FEICON BATIMAT é o evento referência para o setor da construção civil na América Latina.  Ele Reúne os principais revendedores e distribuidores, para apresentação de lançamentos, produtos e novas tecnologias. fonte: Feicon   https://www.feicon.com.br/O-Evento/Informacoes-Gerais/Apresentacao/ Acessado em 19/04/2018. 

3 - Fake News são notícias falsas, mas que aparentam ser verdadeiras. Não é uma piada, uma obra de ficção ou uma peça lúdica, mas sim uma mentira revestida de artifícios que lhe conferem aparência de verdade. fonte: portal Mackenzie https://portal.mackenzie.br/fakenews/noticias/arquivo/artigo/o-que-e-fake-news/ Acessado em 19/04/2018.

* Esta publicação possui direitos autorais. Qualquer uso das imagens sem prévia autorização dos autores é crime e haverá penalização jurídica.


Sobre o autor

Alicia Sofia Alfonso Severino é nascida em São Paulo, em 1999, graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.   

Carina Sauyee Chiu é graduanda em Arquitetura e Urbanismo na Universidade Mackenzie, atualmente cursando o quarto ano. Possui 21 anos, e é apaixonada por sketch urbano. 

Cindy Mai Kawabe é graduanda no curso de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie e está cursando o terceiro semestre.   

Fernanda de Cillo Alexandre nasceu em São Paulo, em 1997, e é graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.  

Fernanda Muniz Ponce nasceu em São Bernardo do Campo, em 1999, graduanda no terceiro semestre de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

Guilherme Pedote é graduando em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.   

Henrique Alexandre Pereira é estudante de Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, faz parte da gestão 2018 do DAFAM - Diretório acadêmico da Faculdade de Arquitetura e urbanismo Mackenzie - diretor de mídias.

Letycia de Natale énascida em são Paulo, graduanda em Arquitetura e urbanismo pela Universidade Presbitariana Mackenzie. 

Maria Julia Gomes Nicoletti é nascida em Pindamonhangaba - SP, em 1999, graduanda em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

Pedro Barretto Veiga é um jovem graduando de arquitetura e urbanismo na FAU Mackenzie. Colaborou nos escritórios Arkiz (2016), Luiz Paulo Andrade Arquitetos (2017) e Delbianco Arquitetos (2018).  

Teresa Vicini Lodi écatarinense da cidade de Xanxerê. Estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, cursando o quarto semestre. Tem um blog direcionado ao tema da escoliose.  

Thaísa Emilly Santos Silva nasceu em Santos, cidade litorânea de São Paulo, em 1998 e cursa o terceiro semestre de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie.