Existe Arquitetura no subsolo! - As estações subterrâneas da Linha1-Azul do metrô paulistano em desenhos

15/03/2018

por Kássio Massa

     Com inserção majoritariamente subterrânea, excetuando-se seu tramo Norte, sobre a Várzea inundável do Tietê, a Linha 1-azul do Metrô de São Paulo apresenta uma forte relação, em suas estações, com as peculiaridades de terreno e solo encontradas em cada região por onde passa. Para além das estações elevadas já discorridas no capítulo anterior, o trecho enterrado do ramal, compreendido entre as estações Armênia e Jabaquara, praticamente ininterrupto, confere um conjunto arquitetônico linear que não apenas enfatizou, mas redefiniu e reconfigurou o desenho e a paisagem da cidade em seu eixo Norte-Sul, impactando na dinâmica de inúmeras centralidades ao longo do mesmo.

     Esta é a terceira postagem de uma série de seis que ilustram, por meio do desenho livre, o conjunto arquitetônico da primeira linha metroviária paulistana, tendo sido fruto de uma pesquisa de Iniciação Científica intitulada "A Linha 1-azul do Metrô de São Paulo Ilustrada: arte, urbanidade e tecnologia retratadas em técnicas mistas". 

     O partido projetual típico para a maior parte das estações deste trecho, conforme explanou o arquiteto Marcello Accioly Fragelli em seu livro, "Quarenta Anos de Prancheta" (FRAGELLI, 2010), buscou reafirmar o caráter subterrâneo das mesmas, tendo a praça pública e arborizada como um elemento de interação direta entre subsolo, rua e entorno urbano. Fragelli, formado no Rio de Janeiro, radicou grande parte de seu trabalho em São Paulo, tendo incorporado aspectos da arquitetura modernista paulista em sua linguagem, fazendo-a, portanto, se manifestar no desenho do metrô. Para o arquiteto, a robustez das estruturas de concreto, envolta e pressionada pela terra e rochas do solo em todas as suas faces, era uma qualidade que deveria ser exibida a quem transitasse pelos ambientes delas resultantes. A intenção era deixar claro para o passageiro, leigo, o quão seguros poderiam ser aqueles pilares, vigas, cascas e lajes, mesmo que, além de tudo, trens com mais de trezentas toneladas de massa corressem, em alta velocidade, a cada poucos minutos!

     Para tanto, desconsiderando os casos excepcionais das estações São Bento - que abre esta série -, Sé, a ser abordada no próximo capítulo, e Paraíso - cuja setorização e concepção estrutural em paredes estruturais transversais ao comprimento das plataformas derivou da inserção irregular, no trecho, das três linhas (além da 1-azul, 2-verde e o então Ramal Moema, não executado) que nela se integrariam -, estabeleceu-se duas tipologias arquitetônicas em que o volume de acesso e as plataformas se articulam espacial e visualmente, tendo sido concebidos diferentes desenhos de teto e escalonamentos entre os os mezaninos, bem como um trabalho de iluminação - substituído pelo Metrô por um modelo padronizado - que, ainda conforme Fragelli, tendia a enfatizar tais relações. Como exemplo, se na Estação Ana Rosa, que também integra as linhas 1-azul e 2-verde, naves centrais com teto arqueado caracterizam, com algumas variações, as duas plataformas em ilha, a estação São Joaquim apresenta um desenho de teto abobadado.

     Os trabalhos que ilustram este capítulo foram produzidos utilizando-se a técnica da aquarela sobre marcação com caneta nanquim. Para o detalhamento de texturas e objetos pequenos, fez-se uso de caneta gel branca e mina de grafite, reforçando contrastes e áreas de penumbra. O desenho de abertura deste texto teve sua marcação feita por observação in-loco, na própria estação. 


Kassio Massa - Nascido em São Paulo, em 1993, é artista plástico e graduando em arquitetura e urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente, seu trabalho, majoritariamente voltado à ilustração e a fotografia, dá especial atenção à temática das cidades, especialmente. sua paisagem e seus sistemas de transporte e mobilidade. Neste contexto, é autor dos artigos "A Linha 1-azul do Metrô de São Paulo Ilustrada: arte, urbanidade e tecnologia retratadas em técnicas mistas" e "Barreiras Urbanas: mobilidade e conectividade na Região Metropolitana de São Paulo".