Estrangeiro, Estranhe-se: Crônica de um intercâmbio e suas passagens

22/09/2017


autor: Alexandre Abrahão  

Eis por que não se deve dizer: "eu não deveria ter feito tal coisa", mas sempre unicamente: "como é estranho que não tenha sido realizado isso cem vezes!"- Afinal de contas, bem poucos atos existem que sejam típicos e apresentem uma verdadeira súmula do indivíduo; e, a considerar quão pouco a maior parte das pessoas são individualidades, perceber-se-á quão raramente um homem é caracterizado por um ato particular. - Friedrich Nietzsche em Vontade de Potência.

Em meio às voltas que damos e que nos damos, dentro desse organismo vivo chamado rotina, que envolve, desloca e fixa-nos como bem entende, parecendo até mesmo incumbir-se de vontade própria, movendo-nos para lugares impretendíveis, fora da possibilidade de escolha, lugares onde não se espera chegar. Algo me veio recentemente sobre o conceito do tempo pessoal dos indivíduos, aquele tempo só seu, incompartilhável. O sentido de que falo é sobre respeitar suas próprias temporalidades. Em outras palavras, propriamente o respeito com seu tempo pessoal, e não sei se poderíamos acompanhá-lo mesmo se quiséssemos, dada nossa imersão nessa vontade das situações para além do que podemos pensar decidir. Mas será que de fato queremos nossos tempos?

O que nos ocorre é o processo linear de uma vida normatizada Escola - Universidade - Trabalho, depois vem o estudo - prática, enfim a prática - prática. Um caminho tal que deriva da mais genérica das criações, tornando assim a mais impessoal das vidas. A resolução de tudo isso, nada agradável, parece caminhar para uma vida cada vez menos individual. Nos encontramos aqui infiltrados no meio vida, quase irrecuperáveis em todo esse tumulto. Logo a primeiríssima questão a ser feita talvez deva ser a partir de como nos vemos. Para isso é necessário perguntar como seria a visão de fora que teríamos. Concordaríamos com o valor dos sorrisos que demos nos bares? Daríamos corda para os problemas que se passam, sem reverberar? Reconheceríamos aquelas dores que já se foram e quase nem se deixaram? Interrupções. Compreendi, então, que interromper pode ser um modo de localizar, sair-se perante a algo. Inter-romper, inter-relacionar, inter-trocar, inter-acionar, mas sem loucuras, sem internações.

O intercâmbio foge de lógicas "adultas", essas que tentam falar da vida como projeto, reduzindo e submetendo os indivíduos aos erros dos outros, baseando-se nos tropeços individuais de quem dá os conselhos que te colocam ainda mais nesse "importantíssimo" planejamento de vida, tão impessoal quanto impróprio. O intercâmbio é a hora de se individualizar criando novas raízes, para isso é importante desenraizar-se primeiro de algo e apropriar-se de outro. Inapropriável, no entanto, é o termo vida, ao passo que pode ser extremamente prolongável e desgastante. Assim, poderíamos substituí-lo talvez primeira e amargamente por carreira, ou mais docemente por futuro, ou até enclausurá-lo na palavra escolha. O intercâmbio, de qualquer modo, será um erro em meio a inúmeros acertos, e ao mesmo tempo, sem paradoxo algum, um acerto no meio de tantos erros.

Comecei falando de se encontrar, deve-se querer claro, como também é preciso querer entrar naquele avião, dar até breve para seus pais, amigos, amores, paixões e dar uma breve pausa nos seus erros habituais. "O que ela quer da gente é coragem", a vida da qual falava Guimarães, entre tantas vezes reforçando que: "Viver é muito perigoso". Talvez seja sintomático o que o autor propõe nessa construção, na qual esse momento de coragem, a cada nova vereda, tenha de ser criada a tal coragem, e por si só o enfrentamento de cada perigo é inescapável.


A partir do momento em que chegar no novo país, será você, só você, mas perceberá em certo ponto que sempre foi só você, que sempre será e que nada mudou, apenas centrou-se mais na realidade de você mesmo sem o comum do seu dia a dia. Sem o costume será difícil reconhecer-se, sem o efeito das vozes de sempre, sem as malícias da sobrevivência de todo dia, sem as brincadeiras, jogos e ordens, esses desaparecerão. Quando sentar no avião, pedir uma Coca-Cola, já em outra língua, quando pousar e sentir a temperatura outra, viva essa coragem de se ver mais amedrontado, menos habitual e com mais vida em consequência. Inaugure uma política nova do seu corpo, pois estará incessantemente em contato com o novo, ressignificando, dependendo do local, das pessoas, dos rumos...Talvez por isso ninguém consiga preparar a coragem, pois ela se propõe em muitas formas. Você chega em sua casa, onde tudo se estranha, encontrará pessoas que nada são suas, com quase nada de reconhecível. É uma sensação de perda sua, no outro, em vários outros. Até um momento consequente em que finalmente se encontrará em si. A única casa que jamais deixará. Os cafés, antes solitários, estarão agora muito bem acompanhados de ideias.


Nós temos um certo hábito, pejoramos o novo e o travestimos de desconhecido, desconfiados. Mas, ironicamente, o cotidiano (de novo ele), ali te tornará o outro, sua voz, sua mente, suas maneiras, hábitos, os bons gostos já não mais tão bons... Então seria triste pensar do seguinte modo: se todo o processo globalizador tende à criação das pessoas com as mesmas influências, gerando os mesmos assuntos, onde o mundo Ocidental parece cada vez mais unificado, próximo e tedioso, com um só todo referencial, essa aproximação universalista de referenciais de conversação poderia deixar-nos atordoados pelo conflito com essa experiência, entre a promessa supostamente nova e a realidade agora verificada. Nota-se uma peculiaridade, um paradoxo a fim de salvar o argumento da experiência legítima do novo: o estranhamento de como cada indivíduo cultiva suas raízes particulares, cada intercambista de cada país natal, mesmo atuando em modelos universais de comportamento, alcança o singular.


O estranhamento da insuficiência de um discurso global colocado por um viés tão particular, pareceria à primeira vista um erro histórico personificado num ser global, e o interesse se forma em perceber o que cada um tem de mais intrínseco escondido, em um movimento incessante e inconsciente de se fazer rugir tudo que lhe é mais culturalmente único. Assim morre, por um lado, o pensamento higienizador cultural, mesmo que ainda esteja em aparência.


Viajar é isso, dizem, "a melhor coisa da vida", tudo parece lindo, lindo é tudo que se pode ver. De fato, a beleza e o impacto dela valorizam seja lá o que for que se viva, mas é caso de se pensar; se viver independe dela, talvez ela tenha a capacidade de ofuscar a própria vivência, em vigor de si mesma. Quando cheguei em Veneza vi: sujeitos que nem lidam mais com a cidade, apesar de todos a verem esculturalmente em cada detalhe. Embora haja essa cautela com discursos de realidade, as viagens te possibilitam criar novas narrativas sobre si mesmo, retiradas muitas vezes de situações impossíveis... Ah se de fato pudéssemos viver essas narrativas, tendo-as tão palpáveis, tão possíveis, sempre no esforço de encontrar existência nelas e, apesar de todas as tentativas, chegando sempre à falha. Mas, por outro lado, sem elas, o viajante se apequena. A dica é viajar sozinho, ao menos nesse sentido, viajar desacompanhado, assim verá tudo no seu tempo, mais individual do que jamais fora, será tudo da sua maneira.

Talvez nesse momento a cidade visitada seja mais sua do que de qualquer outro. Viajar aos poucos, viajar perdidamente, viajar como se não houvesse nem viagem. Pegue três camisetas e duas calças, o bastante será finalmente bastante, o suficiente será o todo, simplesmente. Na realidade use o que quiser, menos desesperos, por mais iguais que forem os passos ao sair do avião, ao chegar no ônibus, ao cruzar a ponte e avistar as gôndolas (essas mais alegóricas que vivenciadas), é preciso se encontrar nessa sua história, em que ironicamente você mesmo se insere, um ponto de alegria imprescindível.

... Talvez por isso ninguém consiga preparar a coragem, pois ela se propõe em muitas formas ... 

Recentemente, em uma conversa preciosa com um professor na Universidade Presbiteriana Mackenzie, me foi colocado um artigo de Sérgio Augusto intitulado "A arte de ficar à toa", no qual o autor coloca o ócio como papel fundamental no desenvolvimento da história do pensamento, colocando em xeque os ociosos como transformadores do mundo, "porque os outros não têm tempo algum", citando Albert Camus. O ócio nas atuais intenções desse artigo pode-se referir ao autoconhecimento, o pensar inovador que transforma a si mesmo. Ou seja, qualquer um que siga os conselhos do cronista deverá então viver o ócio possível do viajante, mas com convicção, por direito e como método.


Meu intercâmbio particular foi em Paris, a cidade já extrapolada de reconhecimento. A cultura francesa é para nós brasileiros demasiadamente estetizada e promulgada com máxima eficiência. Difere, no entanto, da Paris descoberta com tempo e reflexão. A cidade que eu descobri, suas regras, seus olhares, seus valores históricos, essa aglomeração de formas de monumentos notórios, os quais mesmo em desatenta percepção caem nas graças de qualquer um que se deixe transpassar. Já para eles, o brasileiro exótico tem o misticismo do presente, da localização, até da precariedade como força cultural (antiglobalizada até), ou seja, o objeto particular aqui substituído por seu momento de raridade como forma de maior critério de valor. Como se as praias quase inatingíveis da região Nordeste do país nos conferissem uma beleza mais rica; nessa linha de razão seria triste pensar que a riqueza talvez só seria possível vista de longe, irrealizável em sua própria condição. Já o lugar tem uma relação menos tentadora, o próprio povo francês sabe de sua gênese pouco calorosa, inclusive conhecem os benefícios de sua frieza, esses são comprovados dia após dia na grande qualidade de seus trabalhos e feitios; os calorosos que se cuidem diante dessa qualidade produtiva.

Por outro lado, em 1921, Hemingway nos colocava a cidade de Paris que era uma festa, dizia aos jovens moradores da cidade luz que sempre deveriam lembrar-se dela, e que nunca aquela efervescência sairia mais deles, não importa onde fossem. Caso é que a cidade da década de 20, claramente não mais a mesma, resguarda algo da simplicidade da vida do autor ainda jovem, sobre a qual seria impossível não dialogar e identificar, mesmo hoje, independentemente de qualquer sobrecarga que o cotidiano na metrópole pôde me causar. A Paris terá sempre seu inesgotável charme acumulativo no tempo, ressignificado agora em mim.