XII Bienal Internacional de Arquitetura - Todo dia

26/09/2019

     Com o tema Todo o Dia, a XII Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo vem com a intenção de descamuflar o cotidiano e as relações urbanas do dia a dia. A BIA acontece em dois prédios diferentes, ou usando o termo adotado pela curadoria do evento, "edifícios manifestos", o Centro Cultural São Paulo e o Sesc 24 de Maio.

     O evento localizado no Sesc 24 conta com dez intervenções espalhadas ao longo do edifício. São objetos que se relacionam com a temática de alguma forma, desde o espelho de Andrés Sandoval no rodapé da fachada externa, que nos relembra o peso e a importância das calçadas históricas e dos mosaicos portugueses do centro da cidade no nosso dia a dia, até o Apanhador de Nuvens do escritório francês Bruther, no mirante do prédio, trazendo a reflexão sobre a nossa relação com a água no cotidiano urbano, além do belíssimo efeito causado pelos irrigadores agrícolas da instalação, que em dias menos ventosos quase nos faz sentir flutuando por dentro de uma nuvem.

     Os relatos das mulheres do Concreto Rosa e suas clientes no terceiro andar, o Rampante dos mineiros Renata Marquez e Wellington Cançado, que coloriu as vidraças do edifício com telas fachadeiras para chamar atenção para as variações climáticas causadas pelo homem e para a entrada no antropoceno, uma nova era geológica e a instalação do Vão + Adamo Faiden, no 11 andar do prédio vizinho chamam bastante atenção daqueles que procuram pela bienal no Sesc 24, mas a instalação que talvez tenha chamado mais atenção do público e ajudado a causar questionamentos e reflexões naqueles dispostos a tentar entender as motivações do autor, foi a instalação Nova República desenvolvida pelo antropólogo Hélio Menezes e o escritório sul africano Wolff Architects.

     Nova República consiste em uma réplica do salão de cabeleireiro Mangueira presente há décadas na Galeria Presidente, ou Galeria do Reggae como é mais conhecida, e uma grande estrutura em forma de lanterna, ou balão como sugerem os passantes da rua 24 de Maio, içada com cabos de aço ligando ambos os prédios.

     A instalação é fruto de uma tenção existente entre esses dois edifícios icônicos e grandes pontos culturais da Cidade de São Paulo. A Galeria do Reggae, edifício projetado pelo escritório Siffredi e Bardelli, os mesmos projetistas da Galeria do Rock, é desde os anos 70 um grande reduto da cultura negra de São Paulo. O grande número de salões de cabelereiros especializados em cabelos afros, mercadinhos e restaurantes de culinária africana, a grande presença de imigrantes, principalmente angolanos, congoleses e nigerianos evidenciam a efervescência cultural negra e africana naquele espaço. Atravessando a rua, o Sesc 24 de maio, projeto de Paulo Mendes da Rocha em parceria com o escritório MMBB, tornou-se em apenas 2 anos um dos principais pontos culturais da região central da cidade, são grandes os números de exposições artísticas e oficinas realizadas naquele espaço durante todo o ano, além de desenvolver atividades esportivas, de lazer entre outras.

     Além de ter a intensa atividade cultural como ponto em comum, ambas as edificações seguem a arquitetura das galerias muito presente nessa região, é possível sem esforço algum, atravessar do Largo do Paissandu até a Rua 7 de Abril apenas cruzando as ruas e calçadões do centro, atravessando pelos miolos de quadra ocupados por emaranhados de galerias comerciais, fazendo com o que o centro tenha uma circulação alternativa bastante fluida. Porém, essa fluidez existente na região proporcionada pela arquitetura encontra uma barreira na rua 24 de maio entre os dois prédios em questão.

     Os públicos dos dois espaços pouco se misturam, e acaba sendo bastante nítida a carga de desconfiança entre ambas as partes. A curiosidade causada no público da bienal por uma réplica de um salão de cabeleireiro existente a apenas 40 metros de distância do Sesc, denuncia o distanciamento e a falta de relação entre as duas instituições.

     Além das reflexões e do questionamento da não relação entre ambas edificações e do público que ali vivem, a Nova República conseguiu causar uma micro alteração no cotidiano deste pequeno trecho de rua. A primeira alteração é a sombra causada pelo grande balão verde, amarelo e vermelho que acaba por atrair em um ponto específico da rua trabalhadores autônomos, principalmente mulheres negras e imigrantes que prestam serviços capilares no passeio entre as duas edificações. Outra alteração foi uma pequena mistura entre os públicos relatada em conversas com comerciantes da Galeria do Reggae e frequentadores do Sesc.

     Nova República, é uma instalação fruto de uma observação e vivência de antropologia urbana muito bem executada por Hélio Menezes e pelo escritório sul africano, que prontamente identificaram este apartheid não institucionalizado e propuseram um dispositivo extremamente potente que em pouquíssimo tempo conseguiu ser uma força motriz de alteração da ordem e da dinâmica presente naquele espaço.



Sobre o autor

Paulo David é formado em história pela FFLCH da USP, e atualmente é graduando em arquitetura e urbanismo pela FAU Mackenzie.