Estação Mackenzie: um mês que a lenda urbana se tornou real.

27/02/2018

autor: André França

Próxima Estação / Next Station / Higienópolis-Mackenzie

  A chamada mais aguardada do sistema metroferroviário da capital se tornou realidade há pouco mais de um mês, em 23 de fevereiro de 2018, e já altera a rotina da região. Quem caminha pela primeira quadra da rua Piauí, a partir da rua da Consolação, já pode perceber o grande movimento causado pela nova parada. Com maior público formado por alunos, professores e funcionários do Mackenzie, torna-se claro o movimento através das filas geradas junto às catracas do então pequeno e vazio acesso Piauí do campus universitário.

  A nova estação Higienópolis-Mackenzie, oitava parada a entrar em operação na Linha 4-Amarela do metrô tem previsão de carregar 42 mil pessoas por dia, e promete alterar a dinâmica local. A começar pela própria universidade, que deve erguer um novo edifício com salas de aula, laboratórios e biblioteca ao lado da nova estação, no valor de R$ 250 milhões. A torre proporcionará um novo acesso ao campus, dividindo a demanda com a atual entrada da Consolação.

  Para os usuários dos trens, uma importante redução de tempo: os cerca de quinze a vinte minutos até o interior de Paulista ou República - distantes cada um em cerca de 1 km, e vencidos por vezes com integração por ônibus - foram substituídos por menos de 3 minutos a pé entre a superfície e as plataformas. Isso porque a estação de 12 mil m² registra 25 metros de profundidade, em seis lances de escadas rolantes.

  Muito aguardada pela população usuária da região central, principalmente pela comunidade acadêmica, a inauguração teve registrada até a intenção de eventos comemorativos, como o bastante divulgado "Quem espera sempre alcança", promovido por estudantes da universidade. Não por menos, a estação já ganhara o status de "lenda urbana", tamanha a expectativa gerada ao longo dos 13 anos de obras e mais de 40 anos de planejamento da linha.

Contexto e Entraves

  A história da linha - e consequentemente da estação - é antiga e complexa. Remonta aos primeiros planos do sistema paulistano, em especial o realizado em 1968 pelo Consórcio HMD - formado pelas empresas Hochtief, Montreal e Deconsult. A este plano, considerado o primeiro da rede atualmente em forma, três linhas prioritárias eram dispostas na urbe, sendo a Norte-Sul, Noroeste-Nordeste e Sudoeste-Sudeste. Esta última, perfazendo ligação entre o Jóquei Clube e o início da Via Anchieta, cruzando a região central da cidade. A linha ainda contava com ramal no tramo leste para o bairro de Vila Bertioga, região da Mooca. 

  Com o passar dos anos, os planos foram se alterando, e da antiga Sudoeste-Sudeste apenas o braço entre a zona oeste e o centro pôde ser viabilizado. Com tentativas de financiamento não aceitas pelos bancos internacionais, a já nomeada Linha 4-Amarela teve seus trabalhos adiados, iniciados posteriormente às obras da Linha 5-Lilás (finalizada em 2002). A Linha 4 começara sua ligação entre a região de Vila Sônia e a Luz em 2004. Seu processo de construção ficou marcado por eventos importantes, como o cancelamento da estação Três Poderes, o acidente da estação Pinheiros, o cancelamento de contratos com construtoras, e diversos adiamentos, além de todo o processo de concessão em PPP - Parceria Público Privada - até então inédito no país - com a ViaQuatro, atual operadora. A linha teve seu primeiro trecho aberto ao público em 25 de maio de 2010, entre Faria Lima e Paulista, estendendo aos poucos a operação para as demais estações.  

Lenda Urbana

  Apesar de iniciar a construção em 2004, a Linha 4 sempre teve por plano realizar as obras em três fases distintas, sendo a primeira (inaugurada em 2010) com apenas estações principais de conexão (Butantã, Pinheiros, Faria Lima, Paulista, República e Luz), ficando as demais para as outras fases. Higienópolis-Mackenzie, assim, estivera sempre marcada para a segunda etapa, junto de Fradique Coutinho, Oscar Freire, São Paulo-Morumbi e Vila Sônia.  

  Da proposta inicial, porém, apenas Fradique Coutinho fora inaugurada em 2014. À mesma época, o consórcio de construtores espanhóis Isolux-Corsán-Corvian, contratado em 2011, paralisou as obras e teve o contrato rescindido pelo Metrô em 2015; sendo necessário um novo processo licitatório, finalizado em 2016, vencido pelas empresas TIISA e COMSA. Ainda à obra, um novo entrave ocorreu para rebaixar um lençol freático "não-previsto" nas sondagens, que passou a inundar o poço de escavação.

  Prevista inicialmente com mais paradas intermediárias, a Linha Amarela previa duas paradas no eixo da rua da Consolação, sendo "Higienópolis" ou "Sergipe" - esquina com a rua homônima, ao lado do Cemitério da Consolação - e "Maria Antônia" - também esquina com a rua de mesmo nome, reconhecida pela concentração de bares e vida noturna. Na revisão do projeto, quando do edital, fora definida a unificação das duas paradas ao ponto central, junto à rua Piauí, com parte do terreno cedido pela instituição. O novo nome veio por intermédio do então governador do Estado, Cláudio Lembo, em decreto de junho de 2006. Lembo, vice que assumiu a vaga de Geraldo Alckmin quando este se candidatou à presidência da República, também fora reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, entre 1997 e 2002.

  À data da inauguração, grande comitiva formada por políticos e diretores da instituição de ensino que nomeia a estação, entre eles o atual reitor Benedito Guimarães Aguiar Neto, estava presente ao descerramento da placa e inauguração das plataformas junto com o governador Alckmin. A solenidade, em diversos discursos, fotos e vídeos registrados, foi justificada pelo tom simbólico do equipamento. Para o governador, pré-candidato à presidência nas eleições deste ano, o momento era dado como histórico pela entrega da primeira de uma série de estações atrasadas sob sua responsabilidade. Para a comunidade acadêmica, histórica pelo fim dos entraves à construção e fim da expectativa de tantas turmas de alunos que sonharam com a possibilidade de ter o metrô à porta do campus universitário. A estação Mackenzie deixou de ser lenda urbana e se tornou finalmente realidade.

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  André França é aluno de graduação na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo Mackenzie. Formado em Jornalismo pela Universidade Paulista, ele é co-fundador do portal Viès arquitetônico.