Desejo e Liberdade: expressões da existência humana

12/10/2017

autor: Hugo Rossini

Referente às discussões sobre arte e desejo de apropriação do espaço público pela visão de arquiteto graduado
pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.
 

No texto "O Vazio da Existência" (1), Schopenhauer coloca que a existência do homem se encontra em seu presente momento, uma vez que o passado já não existe e portanto não mais interessa. O vazio, ou o próprio tédio, é espantado pelo desejo, um constante movimento insaciável que gera deslocamento no campo físico e intelectual. Tal percurso incessante confere equilíbrio ao indivíduo que encontra harmonia em seus próprios desejos inquietantes.

Assim como a libido, o desejo é algo que nos impulsiona e nos move em direção a algo desejado. O desejo sempre ocorre primeiramente na consciência do ser desejante para posteriormente se manifestar e causar o movimento. Portanto, é um fenômeno racional. Trata-se de uma agitação, uma ânsia pela novidade. Adauto Novaes alega que o desejo "(...) tem sua origem em nós mesmos, e que, portanto, é a própria essência do homem" (2). Pode-se constatar assim que não existe vida humana sem desejo.

Sabe-se que cada indivíduo precisa da presença do outro para viver. Ninguém vive sozinho; por isso nos aglomeramos e vivemos em sociedade. É preciso testemunhar a vida para que ela se estabeleça de fato. Hannah Arendt aponta em "A Condição Humana" que vivemos juntos:

"(...) nenhuma vida humana, nem mesmo a vida do eremita em meio à natureza selvagem, é possível sem um mundo que, direta ou indiretamente, testemunhe a presença de outros seres humanos."

Hannah Arendt, A Condição Humana (3)

A existência humana demanda a comunicação, logo pressupõe-se o desejo de nos expressarmos frente ao outro, revelando nossas identidades e singularidades, promovendo a diversidade que ocupa as ruas das cidades. Só "somos", verdadeiramente, quando estamos em público e somos vistos, assegurando a realidade de nós mesmos.

O indivíduo que se manifesta no espaço urbano e se comunica está, por sua vez, expondo suas reflexões intelectuais, bem como seus desejos. Agir dessa maneira na esfera pública é ser um sujeito político que fomenta discussões e contribui para o desenvolvimento da sociedade.

O desejo é uma força que deve se expressar com liberdade desde que este não intervenha na liberdade do outro. Não cabe a nenhum indivíduo cessar a liberdade de expressão do outro se assegurando em discursos de ódio e instaurando o medo. Os que praticam tais censuras podem vir a ser pessoas carentes de pensamento crítico que reproduzem frases prontas e não mensuram as consequências de seus atos. A falta de conhecimento e sensibilidade, que assombra o mundo contemporâneo, tem levado grupos a se manifestarem contra performances artísticas, assolando a liberdade de expressão humana.

A manifestação artística é um genuíno modo de expressão da vida que retrata uma autêntica visão do artista sobre o mundo. Visão essa que pode gerar reflexão, compaixão, afeto, estranhamento, entre outros mais variados sentimentos. Nos dias atuais, é inaceitável o impedimento de uma manifestação artística, uma impossibilidade de que haja qualquer diálogo ou troca. Isto é um gesto autoritário que não cabe em uma democracia.

A democracia é um desejo de todos. Ela pode ser compreendida como uma criança, em constante crescimento e amadurecimento, que requer cuidados e afeto (5). O desejo da democracia hoje está sendo reprimido. A criança da democracia é corrompida por aqueles que movem grandes massas alienadas e sem senso crítico a se manifestarem contra quem não compartilhe os seus valores. A diversidade não é acolhida como deveria. Assim, não se trata de tolerância, mas de respeito, e todos precisam aprender a respeitar as diferenças, pois é disto que o mundo é feito, de pluralidade, e é ela que enriquece a humanidade.

Uma saída para tais acontecimentos pode ser encontrada no próprio desejo e na vitalidade da sua resistência. O ato de desejar é livre do medo, é a própria vida. Se deixarmos o autoritarismo e sua repressão nos intimidar, podando nossos desejos, jamais viveremos.

Schopenhauer tem uma visão pessimista sobre a existência humana. Para ele "a felicidade é inconcebível", é algo que o homem deseja e raramente alcança de fato, por isso sempre que uma vontade é saciada deseja-se algo novo, adentrando um ciclo vicioso. O autor acredita que o desejo é simplesmente uma fuga ao tédio. Entretanto, podemos tomar outras conclusões sobre o que é o desejo. Idealizando-o tal como a força que nos impulsiona e nos motiva e realizar as ações que compõem a existência humana. Hannah Arendt aponta o desejo como a própria vontade do homem de fazer o bem e de ser feliz, assim o desejo nada mais é que o próprio amor (6).


Referências bibliográficas:

  1. SCHOPENHAUER, Arthur. O Vazio da Existência. <https://ateus.net/artigos/filosofia/o-vazio-da-existencia/>

  2. NOVAES, Adauto (org.) O desejo. São Paulo: Companhia das Letras; Funarte, 1990, p. 17.

  3. ARENDT, Hannah. A condição humana. 8. ed. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1997. (Originalmente publicado em 1958), p.31.

  4. imagem disponível em <https://www.artbabble.org/video/louisiana/marina-abramovi-ulay-living-door-museum>

  5. TIBURI, Marcia. Como conversar com um fascista. 8. ed. Rio de Janeiro: Record, 2016.

  6. ARENDT, Hannah. O conceito de amor em Santo Agostinho. Lisboa: Instituto Piaget, 1997. (Originalmente publicado em 1929)


Hugo Rossini Costa Longa é arquiteto e urbanista formado pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2016, onde colaborou com o Diretório Acadêmico da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. Participa do grupo de pesquisa Teoria e Projeto na mesma universidade. Desde 2014 trabalha mo escritório paulista Biselli Katchborian Arquitetos Associados, atuando em projetos de interesse urbano.