Futuro da profissão : Estamos preparados para viver em uma sociedade igualitária? IAB Debate os concursos de arquitetura e o futuro da profissão

09/05/2018

Camille Bianchi, Héctor Vigliecca e César Shundi, três debatedores convidados para a terceira mesa de discussão.       por Lucas Dalcim
Camille Bianchi, Héctor Vigliecca e César Shundi, três debatedores convidados para a terceira mesa de discussão. por Lucas Dalcim

     Motivado pelo momento crítico e de reflexão dos arquitetos frente a um descrédito no âmbito profissional, o IAB São Paulo realizou uma série de três encontros para debater os concursos de arquitetura e urbanismo, importante vertente de produção arquitetônica tradicional e contemporânea. Na tentativa de se discutir quais os possíveis rumos da arquitetura brasileira, torna-se pertinente a análise dos processos de concepção e discussão dos projetos enviados para a disputa como importante registro histórico da reflexão arquitetônica atual e, consequentemente, os projetos selecionados como "vencedores" simbolizam para qual horizonte o desenvolvimento da arquitetura deve fluir.

     As três temáticas foram: Edital e normas, quem segue o edital ganha concurso? Júri e crítica; júri é crítica? e por fim, Inovação e tradição, quanto pesa a tradição? Alguns textos foram disponibilizados para o embasamento teórico e conceitual das discussões, links que estão disponíveis ao final desta postagem.

     A discussão da terceira mesa, em específico, remete uma problemática que cotidianamente o profissional da arquitetura e urbanismo se depara em suas intervenções, nas diversas escalas e especificidades; quanto pesa a tradição? qual a garantia da construção do projeto vencedor? Nessa discussão, o arquiteto e urbanista Héctor Vigliecca pontuou que existe uma importante diferença entre tradição e modus operandi, sendo que os costumes nos trazem ensinamos e parâmetros de aprendizado e atuação, mas nunca devem ser enfrentados como fórmulas sintéticas replicáveis. Ele ainda completa que o concurso de arquitetura por convenção é um procedimento imperfeito, cuja possibilidade de construção, em âmbito nacional, é praticamente nula. Todavia, o profissional deve ter a maleabilidade de extrair aprendizado e vantagens do processo submetido. Porém, uma outra questão é lançada: quantos escritórios de arquitetura recém abertos tem a possibilidade e alicerce financeiro para bancar a participação de sua equipe em um concurso? O arquiteto César Shundi ainda acrescenta que se os projetos públicos, ao invés de serem gastos milhões em licitações públicas, tivessem a iniciativa de realizar suas obras por meio de concursos públicos, a qualidade da arquitetura como objeto e sua inserção urbana seriam mais satisfatórias e iriam contribuir para o desenvolvimento mais efetivo da cidade. Tal ação amplia as possibilidades das temáticas dos concursos, para assim espraiar interesses dos participantes e diminuir a concorrência dos concursos, ato que democratiza a produção das variáveis tipológicas enquanto arquitetura construída, ou seja, aumenta o número de projetos síntese para abranger um número maior de autores que os assinam.

     Esses foram alguns dos pontos levantados no último debate do ciclo e, independentemente das questões levantadas, dos rumos incertos e do futuro de nossa profissão, um adendo: o momento de crise é pertinente para uma autorreflexão dos profissionais de nossas áreas mas, para além disso, ao levar em conta as barbáries cotidianas que acontecem entre os agentes administradores e moradores da cidade - desapropriação violenta, forçada e ilegal na área da Luz, a criminalização dos movimentos sociais, a intolerância e falta de compaixão pelas vítimas do desabamento do edifício Wilton Paes, dentre outros acontecimentos que preenchem as capas dos jornais diários e que assistimos imóveis - não é suficiente apenas rediscutir o futuro da profissão, as possibilidades do concurso de arquitetura como potencial de trabalho, dentre outras possibilidades, mas sim repensar nossos princípios éticos, solidários e refletir: estamos preparados para viver numa sociedade igualitária? A partir dessa resposta conseguiremos evoluir o país como economia, desenvolver nossas ramificações  profissionais da arquitetura e urbanismo e, finalmente, produzir concursos cujos projetos reflitam o pactuamento realizado entre nós, sociedade, e nosso campo de atuação.


Links dos textos de apoio cedidos pelo IAB SP

"Sobre a (ausência de) crítica na arquitetura: ou, porque temos que ler mais que apenas o título."
18 Setembro, 2017 por Equipe ArchDaily Brasil
https://www.archdaily.com.br/br/879557/sobre-a-ausencia-de-critica-na-arquitetura-ou-por-que-temos-que-ler-mais-que-apenas-o-titulo


"Sedução em escala monumental: o Templo de Salomão em São Paulo."
11 Setembro, 2017 por Helena Cavalheiro

https://www.archdaily.com.br/br/879361/seducao-em-escala-monumental-o-templo-de-salomao-em-sao-paulo


"Qual o problema dos concursos nacionais de arquitetura?"
20 Julho, 2017 por Romullo Baratto

https://www.archdaily.com.br/br/876142/qual-o-problema-dos-concursos-nacionais-de-arquitetura


"Sobre os concursos de arquitetura no Brasil e a deprimente ausência de inovação."
17 Julho, 2017 por Héctor Vigliecca

https://www.archdaily.com.br/br/875906/sobre-os-concursos-de-arquitetura-no-brasil-e-a-deprimente-ausencia-de-inovacao-hector-vigliecca


"Perspectivas do Chão: Novos olhares para os concursos de projeto de arquitetura no Brasil."
25 Abril, 2017 por Frederico Costa, Léa Gejer, Luis Fernando Milan e Maíra Barros

https://www.archdaily.com.br/br/869916/perspectivas-do-chao-novos-olhares-para-os-concursos-de-projeto-de-arquitetura-no-brasil 


Lucas Dalcim é estudante de arquitetura e urbanismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ele também é sócio fundador do portal Viès Arquitetônico.