Cidade, Gênero e 1ª Infância

01/09/2017

autora: Ana Gabriela Godinho Lima

 Coluna feita pela professora Ana Gabriela Godinho Lima referente às discussões sobre cidades, gênero e primeira infância, compreendidas pelas lentes da arquiteta e professora da Universidade Presbiteriana Mackenzie. 

   Na América Latina contemporânea, cerca de 85% da população vive em cidades. Uma parcela crescente em territórios informais e precários. Especificamente na urbe paulistana, a maior parte da população experimenta algum tipo de privação, em sua maioria mulheres, gestantes adolescentes e crianças. Este cenário contradiz de modo contundente o que consta na Constituição Federal e no Estatuto da Criança e do Adolescente:

 " É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-la a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e pressão." (Estatuto da Criança e do Adolescente, 1990)

    Situando mais especificamente nosso âmbito de preocupações na cidade de São Paulo, mais de 3.9 milhões de pessoas, cerca de 50% crianças, são sujeitas a situações de extrema violência, e não têm acesso a espaços públicos e serviços essenciais, como atendimento médico e educação básica. As atividades culturais e lúdicas são uma realidade distante. Por outro lado, a gestação adolescente e infantil representa uma crua realidade.

     Estas jovens mães integram um contingente de mulheres que são as principais cuidadoras de crianças, ao mesmo tempo em que são vítimas frequentes de violência de gênero e abuso sexual. Nesse âmbito, as mulheres enfrentam violência principalmente em casa, aonde são muito frequentes os espancamentos pelo pai, padrasto, marido... e no transporte público, quando sofrem abuso sexual que abrangem desde comentários e olhares de cunho obsceno até violência física.

      Como profissionais de arquitetura e urbanismo, interessa construir novas formas de pensar o espaço urbano, os edifícios e as vidas das pessoas em territórios de vulnerabilidade social. Propor-nos novas perguntas, que conduzam nossos esforços criativos para soluções que sejam o resultado da colaboração de vários agentes, profissionais e não-profissionais, várias inteligências, adultas e infantis, femininas e masculinas, das minorias, das pessoas que comumente não podem se manifestar. Como seria trabalharmos assim?

   Algumas iniciativas de abrangência mundial têm proposto novos problemas para a arquitetura e o urbanismo, desafiando os modos de ensinar, pesquisar, projetar e aprender nossa profissão. A Edição especial do periódico Territory of Research on Settlements and Environment: International Journal of Urban Planning (2016), foi dedicada ao tema de gênero, com o título: Engendering Habitat III: Facing the Global Challenges in Cities. A publicação derivou de um evento realizado no mesmo ano com este nome, discutindo os desafios contemporâneos de desenhar a cidade a partir da perspectiva de gênero.

     Algumas perguntas-chave formuladas no âmbito do evento foram: como seria a arquitetura e o desenho urbano sensível ao gênero? O que os diferencia das práticas tradicionais? O que seria substancialmente diferente, e o que se sobreporia à prática arquitetural feminista? Haverá conflitos com outras áreas de desigualdade, como raça, capacidade e idade? Ênfase foi dada ao projeto construído e vivido, ao invés dos processos e procedimentos institucionais.

  Articulada à questão de gênero, e aos papeis culturalmente ainda atribuídos predominantemente a mulheres, está a questão da vida da criança pequena, que cresce no território urbano - no Brasil, estima-se que em torno de 85% das crianças sejam cuidadas predominantemente por mulheres. Contemplando especificamente esta questão, a fundação holandesa Bernard van Leer vem promovendo, desde a década de 1960, projetos que promovam o desenvolvimento saudável as crianças de 0 a 6 anos. Em 2016 lançou o edital para captar propostas de desenho urbano que contemplassem a perspectiva da criança de 3 anos, que atinge uma média de 95 cm. As perguntas propostas no texto do edital foram: se você pudesse ver a cidade da perspectiva da altura de 95 cm, o que você faria diferente? Como organizaria vizinhanças, espaços públicos, parques, transporte, serviços de saúde, grupos de apoio às famílias e serviços voltados para a primeira infância?

     O projeto de pesquisa Cidade, Gênero e 1a Infância[1], buscando contemplar estas questões e articulando-as às questões de gênero, ganhou o quarto lugar neste edital, com a proposta de desenvolver um curso de formação complementar contemplando as novas questões para a cidade contemporânea e a complexidade de seus territórios vulneráveis. Algumas perguntas estão colocadas, outras estão por vir. Fica o convite para se juntarem a nós na jornada!

São Paulo, Inverno de 2017

Viés arquitetônico

 " Olhar é o necessário instrumento que, depois de usado, jogarei fora".

Clarice Lispector

   Está no texto "O ovo e a galinha", que minha aluna[2] trouxe para seu trabalho, e inspirada por ela dela eu o uso aqui. Se eu pudesse compartilhar algo que valha a pena do que aprendi com a experiência eu diria: façamos como Clarice e, depois de olhar, seja o ovo, seja a aluna ou aluno na nossa frente, sejam nossas filhas, filhos, esposas e maridos, velhas amigas e velhos amigos, joguemos estes bons instrumentos, estes nossos olhares espertos, cultos, experientes e sofisticados fora... e esperemos pra ver o que vem depois.[3]

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Referências bibliográficas:

INTERNATIONAL Journal of Urban Planning / Territory of Research on Settlements and Environment.Engendering Habitat III: Facing the Global Challenges in Cities. Special Issue.Università Degli Studi di Napoli Federico II: Centro Interdipartimentale L.U.P.T. Vol. 9, n.2, Dec. 2016.

Fundacão Bernard Van Leer - https://bernardvanleer.org/

[1] O projeto é desenvolvido no âmbito do Termo de Cooperação entre Universidade Presbiteriana Mackenzie e Instituto Brasiliana, e é coordenado por Ana Gabriela Godinho Lima e Rodrigo Mindlin Loeb. (website: projetomackenziebrasiliana.wordpress.com

[2] A aluna e seu trabalho: Letícia Becker Savastano. (Des)conhecidos cotidianos. Processos Polifônicos. Trabalho Final de Graduação, 2016.

[3] Trecho retirado de um post no meu blog: inquietudesprojetuais.wordpress.com