Uma concepção urbana e arquitetônica: O traçado e a inserção da Linha 1-Azul do metrô paulistano em desenhos (e fotos)

23/11/2017


autor: Kássio Massa

PALAVRA DO AUTOR

     Esta é a segunda postagem de uma série de seis que ilustram, por meio do desenho livre, o conjunto arquitetônico da primeira linha metroviária paulistana, tendo sido fruto de uma pesquisa de Iniciação Científica intitulada "A Linha 1-azul do Metrô de São Paulo Ilustrada: arte, urbanidade e tecnologia retratadas em técnicas mistas". 

      Em 1968, o então Grupo Executivo do Metrô contratou, mediante concorrência internacional, o consórcio HMD, formado por uma cooperação entre uma empresa de engenharia civil brasileira, Montreal, e duas empresas alemães, Hochtief e Deconsult, especializadas em tecnologia de construção metroviária, encarregado de produzir os estudos sócio-econômicos e o pré-projeto de engenharia do que viria a ser concretizado como a primeira linha de metrô da cidade de São Paulo, em discussão desde meados da década de 1920, quando a extinta (São Paulo) Tramway, Light and Power Company propôs sua rede de metrô leve, descartada em 1927 em favor do Plano de Avenidas elaborado pelos engenheiros Francisco Prestes Maia e Ulhoa Cintra, que também previa - aproveitando, em parte, estudos realizados na ideia anterior - uma rede radial de metrôs estendida ao longo dos canteiros centrais das grandes vias para automóveis, cerne deste projeto de mobilidade. O extenso material elaborado e publicado pelo consórcio germano-brasileiro deu conta de lançar os elementos chave para a definição do traçado, da inserção e do partido arquitetônico da "Linha Norte-Sul" do metrô, na época, prevista para ligar os bairros de Santana (Zona Norte), Jabaquara (Zona Sul) e a região central, em um trajeto majoritariamente subterrâneo, em virtude do grau de consolidação das áreas abrangidas, sendo a extremidade Norte da linha elevada, meio pelo qual se pretendia cruzar o leito do Rio Tietê e suas "recém-inauguradas" pistas marginais, vencendo, a um custo menor de implantação, as grandes glebas planas que formam aquela área de várzea natural do referido rio.

DO 'TRAMWAY' AO METRÔ ELEVADO: O TRAMO NORTE, RUMO A SANTANA 

     O Ramal de Guarulhos, da extinta Estrada de Ferro (o 'Tramway' da) Cantareira, percorria a Avenida Cruzeiro do Sul a partir da região do Bom Retiro, e foi um importante aspecto da urbanização de bairros do extremo-Norte, como Casa Verde, Tucuruvi, Tremembé, Jaçanã e parte do município de Guarulhos, onde fazia paradas. Não por acaso, o plano da Linha 1-azul resgatou parte do trajeto da antiga ferrovia, desativada um pouco antes, em 1964, "sobrevoando", agora em via elevada, o canteiro central da avenida, entre as regiões do Canindé e de Santana, onde se situa a estação homônima, então terminal da linha.

     Na ocasião do projeto deste trecho, o consórcio HMD contou, inicialmente, com a atuação de um escritório subsidiário do grupo Montreal, a Promon Engenharia, na figura do arquiteto Marcello Accioly Fragelli, tendo em vista uma premissa vinda do próprio prefeito de São Paulo, na época, José Vicente Faria Lima, de que a arquitetura das estações deveria ser genuinamente brasileira, ainda que a assessoria técnica em projetos de metrô, ainda praticamente inexistente no país, fosse prestada pelo corpo alemão do consórcio. A concepção arquitetônica proposta, então, tratou as estações e a via elevada entre elas como um elemento de mesma linguagem, buscando um desenho que, nas palavras do próprio arquiteto, reforçasse uma atmosfera de modernidade na qual o metrô estaria inserida enquanto modal de transporte rápido na cidade.  

     Neste sentido, tendo o concreto aparente como linguagem adotada, a estrutura da via elevada, constituída por um tabuleiro apoiado por pilares trapezoidais, dá suporte ao corpo das estações, recebendo as vigas longitudinais que sustentam as plataformas de embarque e desembarque, e a cobertura. Por fim, uma sequencia de pórticos estruturais pré-fabricados amarra, a cada 25 metros, todos estes elementos, criando um volume característico. O corpo de acesso típico atua como uma passarela sólida sobre as pistas da avenida, que possibilita sua transposição por parte de pedestres, bem como abriga a área de bilheterias imediatamente abaixo do nível dos trens. Um bloco distinto, alocado ao lado de um dos acessos no nível da rua, abriga a área operacional. Ainda que o posicionamento dos volumes de acesso se alternem de uma estação a outra - a fim de se distribuir melhor o fluxo de pessoas -, e a Estação Portuguesa-Tietê se integre diretamente ao terminal rodoviário homônimo, o conceito sofreu modificações mais drásticas - ainda que sem comprometer o partido arquitetônico essencial -, apenas no caso de duas das quatro estações: em Santana, o relevo, já em aclive, não possibilitou a existência do nível intermediário do corpo de acesso, tendo sido necessária a criação de um grande saguão no subsolo para se acomodar tal programa, dele emergindo, de cada lado da avenida, um volume que conduz os passageiros, através de escadas rolantes e fixas, às plataformas; a Estação Armênia, por atravessar o Rio Tamanduateí e a Avenida do Estado, que o margeia, o sistema de pórticos foi organizado em grupos de três em três, cada qual sustentados, no solo, por um robusto pilar em "árvore", possibilitando, assim, a manutenção dos três grandes vãos necessários para a não obstrução do tráfego da avenida e a não interferência no leito do rio. Os acessos desta estação, por sua vez, se dão por seus dois extremos, atendendo, assim, ambas as margens.


Sobre o autor

     Kassio Massa nasceu em São Paulo, em 1993, é artista plástico e graduando em arquitetura e urbanismo pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Atualmente, seu trabalho, majoritariamente voltado à ilustração e a fotografia, dá especial atenção à temática das cidades, especialmente. sua paisagem e seus sistemas de transporte e mobilidade. Neste contexto, é autor dos artigos "A Linha 1-azul do Metrô de São Paulo Ilustrada: arte, urbanidade e tecnologia retratadas em técnicas mistas" e "Barreiras Urbanas: mobilidade e conectividade na Região Metropolitana de São Paulo".