A flexibilidade na arquitetura

30/08/2018

    A flexibilidade na arquitetura é um tema que pode gerar horas de conversa. Você duvida? Tente então começar respondendo o que pra você é a flexibilidade na arquitetura.

    Geralmente quando essa questão é colocada, muitas pessoas, como críticos, arquitetos ou estudantes de arquitetura respondem que a flexibilidade se dá por meio de paredes móveis, portas deslizantes ou divisórias dobráveis, porém compreender a flexibilidade dessa forma é limitar o significado real do conceito abordado.

fonte: globo.com
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     Desde os primórdios, o conceito da flexibilidade vem evoluindo, porém só tomamos ciência do termo após 1920, com as inovações desenvolvidas pelo arquiteto Le Corbusier. De maneira breve, a flexibilidade já estava presente nos modos de sobrevivência dos homens nômades, os quais dependiam de materiais extraídos da natureza para sua própria proteção, moradia e alimentação. Utilizavam galhos de árvores, ossos e peles de animais para se protegerem das intervenções climáticas. Devido à necessidade caçar seu próprio alimento, mudavam-se com frequência e levavam alguns materiais que porventura podieriam ser reaproveitados.

     Após esse período marcado pela efemeridade justamente pela facilidade de montagem, desmontagem e transporte desse tipo de moradias, a flexibilidade foi marcada pela evolução emergida nas habitações. Com a chegada do neolítico, surgiram os "proto-urbanos", ou seja, a construção de uma cidade sem planejamento, abrigos feitos em blocos de pedras, cobertas com palhas ou madeiras. Posteriormente a flexibilidade se destacou em dois períodos; o primeiro nas habitações egípcias, espacialmente maiores e divididas, com formatos retangulares, portas e janelas, aproximando ao estilo tradicional das habitações. O segundo período pelas habitações romanas que apresentavam a flexibilidade de acordo com a multifuncionalidade que, a partir de suas várias características, serviu de ponto e partida para a evolução da construção da casa moderna.

     A flexibilidade é um dos fundamentos da arquitetura, uma vez que está ligada à sociedade, política e a demografia do ambiente. Com o grande avanço tecnológico que ocorreu por volta dos séculos XVIII e XIX, a especialização da mão de obra, a produção de matéria prima e a forma de viver a cidade passaram por transformações. Este acontecimento, aliado ao crescimento da população do século XX, fomentou a necessidade de novas habitações que acolhessem o novo modelo exigido pela sociedade do consumo.

     A partir desse modelo exigido, começou-se a desenvolver construções com caráter cada vez mais flexível, capazes de se alterarem internamente por meio de divisórias móveis, portas deslizantes, portas pivotantes e estruturas removíveis, cujo objetivo era servir tanto aos atuais, quanto aos futuros usuários da construção. Este processo de flexibilidade desencadeou uma série de debates, congressos, e ideias inovadoras para a época a partir da modulação. Durante todo o século, enquanto muitos arquitetos compreendiam e eram favoráveis à flexibilidade, outros eram completamente contrários. O autor Lefebvre (1991) acreditava que o ambiente possuía apenas uma função e descartava totalmente o conceito da multifuncionalidade, muito usado na época. Hertzberger (2006) discute a flexibilidade e afirma que o conceito não passa de profunda incerteza e falta de comprometimento com o projeto, por isso adota o termo "polivalência", ou seja, se não há uma única solução, que seja preferível todas as outras. Em contrapartida, Friedman (1978) define a flexibilidade através do conceito da arquitetura móvel, por volta de 1960. A essência da ideia de mobilidade baseia-se na hipótese de que o arquiteto é incapaz de determinar 'definidamente' o uso e o carácter do edifício que irá possuir e que corresponde ao utente do  edifício definir (e redefinir) o uso dos espaços. O edifício deve, pois, ser móvel' no sentido de que, qualquer que seja o uso que o usuário ou um grupo social queira, ele seja possível e realizável sem que o edifício apresente obstáculos às transformações que daí resultem" (FRIEDMAN, 1978). Portanto, o arquiteto define a flexibilidade de acordo com a visão da época, assim como todas as definições ainda utilizadas para referir-se a flexibilidade.

     Ao longo da história, a flexibilidade na arquitetura tem sido parte indispensável na constituição da identidade das cidades atuais. A mobilidade, arquitetura montável e desmontável, adaptabilidade, elasticidade, flexibilidade de uso e a arquitetura efêmera, todas essas tipologias foram usufruídas como sinônimo de flexibilidade, talvez correto para a época, mas desatualizado para a flexibilidade contemporânea. De fato durante todo o percurso do século XX, novos modos de construir, novas configurações familiares, inovações de materiais e de caráter construtivo foram evoluindo, e nesse processo o significado do conceito de flexibilidade foi sendo perdido, tornando-se confuso, reflexo dos inúmeros avanços tecnológicos.

     Após longo período de estudo sobre "As manifestações da flexibilidade na arquitetura", dissertação de mestrado que está sendo desenvolvida e será publicada no final de 2018, foi possível verificar entre tantas outras coisas, que o significado da flexibilidade no século passado não faz mais sentido nos dias atuais. Hoje, diversas tipologias são utilizadas para se referir à flexibilidade, porém cada uma com um significado distinto, tanto comparando entre as tipologias, quanto com os significados do passado. Dois exemplos muito simples sobre o significado da flexibilidade na contemporaneidade são: o significado da flexibilidade para o arquiteto Yona Friedman, que utiliza o termo "arquitetura móvel", a qual hoje se entende por construções que possuem portabilidade e podem ser facilmente transportadas para diferentes localidades; segundo, a "elasticidade", antes utilizada para expandir, alongar ou ampliar ambientes através da construção de marquises, garagens ou sótãos, e hoje compreendida como uma tipologia da flexibilidade formada por membranas flexíveis que podem ser facilmente infladas ou desinfladas, como no caso do projeto ARK NOVA, uma sala de concerto inflável.

     Os exemplos dados caracterizam apenas uma introdução do que pode ser a flexibilidade na contemporaneidade. A flexibilidade é a base para a formação da arquitetura, pois é sabido que não se trata de um tema novo, mas sim de um assunto que precisa ser inflado e atualizado de tempos em tempos. Vivemos em constante evolução, assim como a própria arquitetura, com o tempo tudo se transforma e nada permanece igual.



Referências

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Sobre a autora

Nayara Pires Pedrotti é graduada em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade Filadélfia de Londrina (2013), fez curso Técnico em Cinema no Instituto Fátima Toledo de São Paulo (2015).  É Pesquisadora do Laboratório de Projetos e Políticas Públicas - LPP. Coordenou projeto social beneficente Projeto Edificar em 2012 (Londrina, PR). Tem experiência na área de Arquitetura e Urbanismo, Cinema, Cenografia, Projetos de Arquitetura.