A Casa e o Banquete

28/08/2017


autor: Lucas Dalcim

  Especial sobre as comemorações de 100 anos do curso de Arquitetura e 70 anos da formação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie.

>"Eu imaginei que nós fizéssemos um banquete, destes que se sentam na mesa, como existe na literatura, para o qual, comemorando o aniversário dessa escola, minha escola, tivessem sido convidadas ilustríssimas [...] pessoas que pudessem nos representar em um momento como esse. O patrono do banquete seria Cristiano Stockler das Neves, o professor exemplo e fundador dessa escola."

     Essa narrativa constitui um trecho do discurso proclamado por Paulo Mendes da Rocha no evento de abertura às comemorações dos cem anos de existência do curso de Arquitetura no Mackenzie e setenta anos da formação da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). A instituição realizou uma série de eventos e encontros, finalizados ao 18 de agosto, com grande comemoração junto ao Museu da Casa Brasileira, para marcar a data histórica e divulgar as expectativas para o futuro da escola.

     Os eventos comemorativos da FAU Mackenzie refletem uma oposição entre tradição e contemporaneidade: tanto a promoção de mesas redondas com egressos do curso quanto o lançamento do livro síntese da história da instituição, evidenciam um modo de ensinar arquitetura embasado por uma doutrina que foi continuamente regida por pensadores das arquiteturas clássica e moderna, base sólida da profissão, cujos princípios básicos são hoje tidos como conservadores. Em contraponto a esta realidade, a exposição "Escola Viva", que ocorre no Centro Cultural São Paulo até dia 31 de agosto, busca trazer um caráter contemporâneo à escola e simboliza a tentativa do protagonismo estudantil na sala de aula. No geral, a autocracia no ensino perde lugar para um espaço que impulsione os alunos a se posicionarem criticamente e estimule um posicionamento teórico crítico, que mais tarde, refletirá em projetos urbanos e arquitetônicos na graduação. Há então uma busca por um perfil que defina a Instituição, cuja discussão encontra-se nesse processo de dualidade.

Nós e eles

     A discussão sobre a atualidade e tradição pode ser replicada em outras situações. Em recente episódio ocorrido na Universidade Federal de Minas Gerais, alunos de graduação do curso de Arquitetura e Urbanismo questionaram o desenvolvimento de uma atividade projetual tida como "racista", que ressalta uma conformação tipológica aos moldes do Brasil Colônia. Nesse projeto residencial, denominado "Casa Grande", o programa de necessidades apontou à incorporação de um quarto para oito empregados residirem. O episódio gerou uma discussão acerca do corpo de estruturação acadêmica das faculdades de arquitetura que circundam todo o território nacional, sendo elas públicas ou privadas. Esse conflito evidencia uma discussão presente nas universidades contemporâneas - há uma necessidade de constituir uma escola que equilibre a história com a atualidade para superação de preconceitos sociais, que nela se promova um espaço horizontal, democrático e inscrito em um sistema de aprendizado que não seja passivo e alienante, mas que a sala de aula seja capaz de compor um meio de reflexão e debate. Esse conflito traz a tona uma ambivalência de ideias presentes na FAU Mackenzie e refletida nas temáticas dos eventos de comemoração. Ela incorpora em sua organização desde atividades projetuais retrógradas, similares ao caso ocorrido na UFMG, até disciplinas que estimulam a formação de um ser analítico e crítico.

     Em retorno à cena do banquete, pode-se não saber ao certo quem se senta em qual posição à mesa, mas a questão da formação segue em voga nas palavras do professor Paulo Mendes: "Como será a organização de nossa casa para se realizar magnânimo evento?". A FAU Mackenzie demonstrou que o questionamento segue pertinente.<